Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Francisca

Por Machado de Assis (1867)

— Está engraçado, disse César. Que dizes a isto? 

— Digo que é um tolo. 

— Quem? 

— Ele. Olha, creio que o melhor destino que podemos dar a este bilhete é reduzi-lo a pó. Não estão reduzidas a isto as minhas fantasias de donzela e os seus ressentimentos de marido? 

Francisca, dizendo estas palavras, tomou o bilhete da mão de César, e aproximou-o da vela. 

— Espera, disse César segurando-lhe no braço. 

— O que é? 

O olhar de Francisca era tão seguro, tão sincero e também tão cheio de exprobração, que César curvou a cabeça, largou o braço, sorriu e disse: 

— Queima. 

Francisca aproximou o bilhete da luz e só atirou-o ao chão quando a chama aproximava se dos dedos. 

Depois dirigindo-se a César, tomou-lhe as mãos e disse-lhe: 

— Acreditaste acaso que não seja imenso o meu desprezo por aquele homem? Amei-o em solteira; era um poeta; agora desprezo-o, é, um homem vulgar. Mas nem é já a sua vulgaridade que me dá esse desprezo: é porque te amo. Era de amor que eu precisava, puro, sincero, dedicado, completo. Que outro melhor ideal? 

A resposta de César foi um beijo. 

No dia seguinte, às dez horas da manhã, anunciou-se a chegada de Daniel. César ia mandá-lo entrar; Francisca interrompeu seu marido e disse ao escravo que dissesse estar a casa vazia. 

— Que fazes? disse César. 

Amo-te, respondeu Francisca. 


1234567
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →