Por Machado de Assis (1873)
Machado de Assis (1839–1908) é o autor do conto Folha rota, narrativa de tom trágico que aborda o amor impedido, os conflitos familiares e o peso das convenções sociais. Ambientado no Rio de Janeiro do século XIX, o texto revela, com sobriedade e ironia contida, como ressentimentos do passado moldam destinos e conduzem à frustração afetiva e à ruína moral.
Tinham dado ave-marias; a srª D. Ana Custódia saiu para ir levar umas costuras à loja que era na Rua do Hospício. Pegou das costuras, entrouxou-as, pôs um xale às costas, um rosário ao pescoço, deu cinco ou seis ordens à sobrinha e caminhou para a porta. — Venha quem vier, não abras, disse ela com a mão no ferrolho; já sabes o costume. — Sim, titia.
— Não me demoro nada.
— Venha cedo.
— Venho, que a chuva pode cair. O céu está preto.
— Oh! titia, se roncar trovoada!
— Reza; mas eu volto já.
D. Ana persignou-se e saiu.
A sobrinha fechou a rótula, acendeu uma vela e foi sentar-se a uma mesa de costura. Luísa Marques tinha dezoito anos. Não era um prodígio de beleza, mas não era feia; pelo contrário, as feições eram regulares, as maneiras gentis. O olhar meigo e cândido. Mediana de estatura, delgada, naturalmente elegante, tinha proporções para vestir bem e primar pelos adornos. Infelizmente, não tinha adornos nem os vestidos eram bem cortados. Pobres, já se vê que deviam ser. Que outras cousas seriam os vestidos de uma filha de operário, órfã de pai e mãe, condenada a coser para ajudar a sustentar a casa da tia! Era um vestido de chita grossa, cortado por ela mesma, sem arte nem inspiração. Penteada com certo desleixo, parece que isso mesmo lhe dobrava a graça da fronte. Encostada à mesa velha de trabalho, com a cabeça inclinada sobre a costura, os dedos a correrem pela fazenda, com a agulha fina e ágil não excitava a admiração, mas despertava a simpatia.
Logo depois de sentar-se, Luísa ergueu-se duas vezes e foi até à porta. De quando em quando levantava a cabeça como a prestar ouvido. Continuava a coser. Se a tia chegasse achá-la-ia a trabalhar com uma tranqüilidade verdadeiramente digna de imitação. E beijá la-ia como costumava e lhe diria alguma cousa graciosa, que a menina ouviria com agradecimento.
Luísa adorava a tia, que lhe servia de mãe e pai, que a educara desde os sete anos. Por outro lado, D. Ana Custódia tinha-lhe afeto verdadeiramente maternal; uma e outra não possuíam outra família. Havia certamente dous parentes mais, um correeiro, cunhado de D. Ana, e um filho deste. Mas não se freqüentavam; havia até motivos para isso.
Vinte minutos depois de sair D. Ana, sentiu Luísa um rumor na rótula, como que um som leve de bengala que por ali roçasse. Estremeceu, mas não se assustou. Levantou-se devagarinho, como se a tia pudesse ouvi-la e foi até à rótula.
— Quem é? disse em voz baixa.
— Eu. Está cá?
— Não.
Luísa abriu um poucachinho a janela, uma curta fresta. Estendeu a mão por ela, e apertou-lha um rapaz que estava do lado de fora.
O rapaz era alto, e se não fosse noite fechada podia ver-se que tinha uns bonitos olhos, sobretudo um porte airoso. Eram graças naturais; artificiais não possuía nenhuma; vestia modestamente, sem pretensão.
— Saiu há muito tempo? perguntou ele.
— Há pouco.
— Volta já?
— Disse que sim. Não podemos hoje falar muito tempo.
— Nem hoje, nem quase nunca.
— Que quer você, Caetaninho? perguntou a moça tristemente. Eu não posso abusar; titia não gosta de me ver à janela.
— Há três dias que te não vejo, Luísa! suspirou ele.
— Eu, há um dia só.
— Viste-me ontem?
— Vi: quando você passou de tarde às cinco horas.
— Passei duas vezes; de tarde e de noite: sempre fechado.
— Titia estava em casa.
As duas mãos tornaram a encontrar-se e ficaram presas uma à outra. Correram assim alguns minutos, três ou quatro.
Caetaninho tornou a falar, a queixar-se, a gemer, a maldizer da sorte, enquanto Luísa o consolava e confortava. Na opinião do rapaz, não havia ninguém mais infeliz do que ele. — Queres saber uma cousa? perguntou o namorado.
— Que é?
— Penso que papai desconfia...
— E então?...
— Desconfia e não aprova.
Luísa empalideceu.
— Oh! mas não faz mal! Eu só espero poder arranjar a minha vida; depois se queira ou não queira...
— Isso, não, se titio não aprova parece feio.
— Desprezar-te?
— Você não me despreza, emendou Luísa; mas desobedecerá a seu pai. — Obedecer em tal caso, era feio da minha parte. Não, não obedecerei nunca! — Não digas isso!
— Deixa-me arranjar a vida, verás: verás.
Luísa estava silenciosa alguns minutos, mordendo a ponta do lenço que tinha ao pescoço. — Mas por que motivo é que você pensa que ele desconfia?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Folha rota. In: ASSIS, Machado de. Contos fluminenses. Rio de Janeiro: Garnier, 1873.