Por Padre Antônio Vieira (1644)
44. Parece que não podia falar mais concordemente ao nosso intento, nem a filosofia nos gentios, nem a teologia nos Santos Padres: vejamos agora o que dizem as Escrituras Sagradas. O primeiro exemplo que elas nos oferecem é o famoso de Barcelai (2 Rs. 19,38). No tempo em que Absalão se rebelou contra Davi – que tão mal pagam os filhos a seus pais o amor que lhes devem – um dos senhores que seguiram as pautes do rei foi este Barcelai, o qual o assistiu sempre tão liberal e poderosamente, que ele só, como refere o texto, lhe sustentava os arraiais. Restituído pois Davi à coroa, e lembrado deste serviço ou gentileza, de que outros príncipes se esquecem com a mudança da fortuna, qui-lo ter junto a si na corte, e fazer-lhe a mercê e honra que sua fidelidade merecia, e, para o vencer na liberalidade, ou não ser vencido dele, disse-lhe que ele mesmo se despachasse, porque tudo quanto quisesse lhe concederia: Quidquid tibi placuerit, quod petieris a me, impetrabis. Generoso rei! Venturoso vassalo! Mas para quem vos parece que quereria toda esta ventura? Era Barcelai pai, tinha um filho que se chamava Camaam; escusou-se de aceitar o lugar e mercê que o rei lhe oferecia, e o que só lhe pediu foi que a fizesse a seu filho: Est servus tuus Chamam; ipse vadat tecum, et fac ei quidquid tibi lonum videtur.9 Dirão os que têm lido esta história, que se escusou Barcelai porque se via carregado de anos, como ele mesmo disse; mas isso só foi um desvio e modo de não aceitar cortesmente, e não é razão que satisfaça, pois vemos tantas velhices decrépitas, tão enfeitiçadas das paredes de palácio, que, tropeçando nas escadas, sem vista e sem respiração, as sobem todos os dias, bem esquecidos dos que lhes restam de vida. E quando Barcelai não fosse tocado deste contágio, ao menos podia dividir a mercê entre si e o filho, e aparecerem ambos na corte, como vemos muitos títulos com duas caras – a modo do deus Jano – uma com muitas cãs, e outra sem barba. Mas a verdadeira razão por que este honrado pai não aceitou a mercê do rei para si, e a pediu para seu filho, nem a dividiu entre ambos, podendo, pois estava na sua eleição, foi como dizem literalmente Lira e Abulense, porque era pai, e entendeu que tanto lograva aquela honra em seu filho, como em si mesmo. Eu acrescento, que mais a lograva nele do que em si, porque nele era mais sua, como acima disse S. Gregório Nazianzeno. E porque o santo não deu a razão desta sua sentença, nós a dareinos e provareinos agora com outro mais notável exemplo da Escritura.
45. Quando Abraão sacrificou seu filho Isac, é coisa muito notável, e mui notada, que sendo Isac a vítima do sacrifício, os louvores desta ação e desta obediência se dêem a Abraão, e não a Isac (Gên. 17,10). Isac não se ofereceu com grande prontidão ao ofício? Não se deixou atar? Não se inclinou sobre o altar e se lançou sobre a lenha? Não viu sem horror desembainhar a espada? Não aguardou sem resistência o golpe? Que mais fez logo Abraão, para que a obediência de Isac se passe em silêncio, e a de Abraão se estime, se louve, se encareça com tanto excesso? Nenhuma diferença houve no caso, senão ser Abraão pai, e Isac filho. Amava Abraão mais a vida de Isac que a sua, e vivia mais nela que em si mesmo. E posto que ambos sacrificaram a vida, e a mesma vida, o sacrifício de Abraão foi maior e mais heróico que o de Isac, porque se Isac sacrificou a sua vida, Abraão sacrificou a vida que era mais que sua, porque era de seu filho. Até aqui está dito, e bem dito, mas eu passo avante, e noto o que, a meu ver, é digno ainda de maior reparo. Premiou Deus esta famosa ação de Abraão, e como a premiou, e em quem? Não a premiou no mesmo Abraão, senão em Isac: Quia fecisti rem hanc, benedicentur in semine tuo omnes gentes; in Isaac vocabitur ti semen.10 Pois se a ação do sacrifício foi celebrada em Abraão, e não em Isac, por que foi premiada em Isac, e não em Abraão? por isso mesmo. A ação foi celebrada em Abraão, e não em Isac, porque Isac sacrificou a sua vida, e Abraão sacrificou a vida que estimava mais que a sua, porque era de seu filho; e estimava mais que a sua, porque era de seu filho; e da mesma maneira foi premiada em Isac, e não em Abraão, para que o prêmio, sendo de seu filho, fosse também mais estimado dele do que se fora seu. A vida que sacrificastes era mais que vossa, porque era de vosso filho? Pois seja o prêmio também de vosso filho, para que seja mais que vosso. E como os pais estimam mais os bens dos filhos que os seus próprios, e os logram e gozam mais neles que em si mesmos, vede se escolheria ou quereria a Senhora a imensa glória de seu Filho antes para ele, que para si, se a terá por sua, e mais que sua, e se as mesmas vantagens de glória em que infinitamente se vê excedida, serão as que mais gloriosa a fazem e de que mais se gloria?
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 31 ago. 2026.