Por Gregório de Matos (1696)
Mas conhecendo mentiras,
quanto me disse o alvoroço,
repiro agora, o que quis
fazendo negaça ao gosto:
Que como em você conhego,
que lhe será mui custoso
sem fazer da pena opróbrio:
Vendo, que minha esperança
acha o bem dificultoso,
e se encontra coas desgraças
na observação do decoro.
Advirto a minha razão
nos extremos de queixoso
com a raiva da fineza
como refúgio do choro.
Porque limitando a pena
àquele afeto amoroso,
cuja firmeza eterniza,
por alívio o desafogo!
Quero, se é, que pode ser
querer, quem por tantos modos
nem para querer lhe deixa
ação tão tirano afogo!
Que veja você sepulta
a presunção do alvoroço,
que na esperança da posse
era o caminho do logro.
Para que em mudos suspiros
melhor segurem meus olhos,
que a influência de estrela
só neste estado me há posto.
E assim só dela. me queixo,
porque fora lance impróprio
clamar contra as divindades
nesta queixa, que a Amor formo.
Com que advertir-lhe é preciso,
que de tudo, o que me dôo,
na execução de agravo
as glórias julgo por sonho.
Pois se cheguei a adorar,
foi preciso tão notório
do destino, a que rendido
para este fim nasci logo,
E o pertender suspirando
com um desvelo, e com outro
foram protestos do incêndio,
foi do excessivo acordo.
Idolatrar um prodígio,
não foi prodígio, nem noto,
que o rendimento, e desvelo
ficassem acaso opostos:
Porque advertindo, que o céu,
e o Planeta Luminoso
jurararn pleito homenagem
na beleza desse rosto:
O conhecer Liberdade
à vista de tanto assombro
fora, perdendo os sentidos
ser indiscreto e ser louco.
CHORA O POETA A ULTIMA RESOLUÇÃO DE SEU IDOLATRADO IMPOSSIVEL TAM MERECEDORA DESTES DELICADOS VERSOS.
Alto: divino impossível,
de cuja dificuldade,
formosura, e discrição
qual é maior, não se sabe.
Se impossível pelo estado,
a dificuldade é grande,
pois casada, e a teu gosto
que força há de conquistar-te?
Se impossível na dureza,
a ser pedra incontrastável,
basta ser de lavradora,
para que nunca se lavre.
Se impossível pelo estorvo
da família vigilante
é o impossível maior,
que ao meu coração combate.
Mas se és, divino impossível,
de tão alta divindade,
creio, que esperanças mortas
ressurgirás a milagres.
Se és um milagre composto
de neve incendida em sangue,
e sempre o Céu de tou rosto,
mostra dois astros brilhantes:
As mãos umas maravilhas,
um par de jesmins as faces,
o corpo um garbo vivente.
os pés um vivo donaire:
Se são milagres divinos,
Francelinda, as tuas partes,
para viver, quem te adora,
que farás. senão milagres!
Dá-me por milagre a vida
na esperança de lograr-te,
verás ressurgir com glória
uma esperança cadáver.
E se és enigma escondido,
eu sou segredo inviolável,
pois ouves, e não percebes,
quem te diz, o que não sabes.
De que selve a discrição,
com que o teu nome ilustraste,
sendo a Palas destes tempos,
Minerva destas idades.
Discorre em tuas memórias
os dias, manhãs, e tardes,
que foste emprego de uns olhos,
que mudamente escutaste.
Porque uns olhos, que atrevidos
registam a divindade
são sempre d'alma rendida
emudecidas linguagens.
Lembra-te, que em tua casa,
onde cortês me hospedaste,
não me guardaste o seguro
das leis da hospitalidade.
Por que matando-me entonces
traidoramente suave
me calei eu, por guardar
essas leis, que tu violaste.
Se inda não cais, em quem sou,
porque me estrova explicar-me
de uma parte o teu decoro,
e o meu temor de outra parte.
Terei paciência por ora,
té que me tire os disfarces
Amor, que com se vendar,
me deu lições de vendar-me.
E se penetras, quem sou,
porque já o conjeturaste,
e escolhes de pura ingrata
não crer-me, por não pagar-me:
Recorre à tua beleza,
que sei, que ela há de obrigar-te
a crer, que em minhas finezas
corto por multas verdades.
E pois me toca pesar
as tuas dificuldades,
e a ti tua formosura
e discrição pesar cabe.
Julguemos ambos de dois,
qual dá cuidado mais grande,
formosura, e discrição,
ou tantas dificuldades.
CHORA O POETA DE HUMA VEZ PERDIDAS ESTAS ESPERANÇAS.
A Deus vão pensamento, a Deus cuidado,
Que eu te mando de casa despedido,
Porque sendo de uns olhos bem nascido
Foste com desapego mai criado.
Nasceste de um acaso não pensado,
E cresceu-te um olhar pouco advertido,
Criou-te o esperar de um entendido.
E às mãos morreste de um desesperado:
(continua...)
MATOS, Gregório de. Ângela. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.