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#Contos#Literatura Brasileira

Um ambicioso

Por Machado de Assis (1877)

José Cândido respondeu com um repelão, declarou que tudo estava acabado entre eles, e saiu, sempre com os olhos na estrela eleitoral. O barbeiro teve igualmente notícia deste rompimento; e secretamente achou que era complicar a situação já melindrosa; mas de viva voz confessou que os sentimentos de segunda ordem não podem impedir a expansão dos altos interesses e das nobres paixões cívicas. Seu estilo foi menos levantado, mas a idéia foi aquela.

José Cândido concordava com tudo; animava-o a idéia de que não há arrufos diante de um candidato vencedor, e vivia com os olhos nas urnas. Uma dúzia de sujeitos trabalhava em favor dele; dois viviam dia e noite a copiar cédulas. José Cândido, vendo quinhentas, mil, duas mil cédulas manuscritas, imaginara que eram outros tantos votos, e figurava já o efeito de seu nome impresso com o algarismo dos votos adiante. Nunca mais fora à casa do capitão. Este duas ou três vezes mandou-o chamar; uma vez chegou a procurá-lo, mas não o encontrou; deixou um recado, inútil.

Os dois caudilhos estavam divorciados.

E à proporção que os quatro contos iam fugindo, a aurora esperada vinha a aproximar-se de José Cândido; o barbeiro e mais dois ou três férvidos partidários faziam esforços hercúleos. José Cândido chegou a sacrificar alguns mil-réis, nos jornais, em mofinas deste gênero:

ELEITORADO

Recomendamos o nome de um jovem cheio de serviços e de incontestável aptidão: o sr. José Cândido.

Um do Povo

Ou assim:

AO POVO!

Votemos no sr. José Cândido, uma das esperanças da mocidade e um dos fluminenses mais dignos por seus serviços e modéstia.

Justus

Ou assim:

À URNAS!

Os homens honestos, amigos do talento e reconhecidos aos verdadeiros serviços, têm um candidato certo, que sairá eleito, porque felizmente goza da mais vasta popularidade na paróquia: o sr. José Cândido. Às urnas! às urnas!

Um que não falta

VI

Chegou o dia; José Cândido não dormiu a noite antecedente; deixou a cama com a aurora. Preparou-se; atou ao pescoço a gravata mais amarela de sua coleção e foi animar as fileiras. Pelos seus cálculos tinha quinhentos votos certos; a estes deviam acrescer uns duzentos votos de simpatia, ou pessoal ou produzida pelas mofinas dos jornais. Vários amigos ainda lhe filaram alguns mil-réis, que ele entregou em dobro, para fortalecer as opiniões. As horas corriam, ele esperava ansioso o momento fatal.

E, coisa curiosa! não esperavam com menos ânsia o pai e a namorada. A idéia de o ver triunfante, sem que eles dessem por isso, já lhes fazia cócegas no coração. O sr. Mateus amaldiçoara o filho, mas não se lhe daria de abençoar o eleitor. Quanto a Emília, havia um pouco de vaidade e um pouco de interesse; o interesse era a reconciliação possível da família.

José Cândido foi ao barbeiro, que o recebeu um pouco melancólico. O capitão arranjara no bairro um rival de José Cândido, e mandara-o contraminar o trabalho deste, não por medo de que a candidatura vencesse, mas para não perder alguns votos, que dariam mais forças à vitória da chapa. Ora, esse agente secreto estivera nessa manhã na loja do barbeiro, e abrira-lhe os olhos de tal modo, que o barbeiro estava aterrado, não com a idéia da derrota, mas com a do ridículo. Não foi difícil a José Cândido restabelecer o fervor do barbeiro cujo espírito viera a este mundo, destinado a mover-se a todos os ventos do horizonte.

— Tem razão, disse ele; você tem razão. São tricas!

— Ora, você ainda vai com cantigas! O que eles querem é justamente assustar e desanimar a gente. Nada de fugir de caretas.

— Apoiado!

— Vamos à igreja!

— Vamos!

Fechou-se a loja; os dois oficiais tiveram sueto para ir votar. Alguns fregueses, dando com a porta fechada, praguejaram contra a indolência do Fígaro eleitoral; mas não lucraram nada com isto. A porta não se abriu.

A luta foi longa, renhida, desesperada. José Cândido pôs em ação todas as molas de seu gênio cabalista; ia, vinha, andava, parava, chapéu na mão ou na cabeça, bolso cheio de cédulas, dando-as a um, trocando a de outro, enchendo as algibeiras dos votantes. A cada instante dava o sinal dos rolos; apoiava um e outro partido, quando se tratava de denunciar um fósforo e impedi-lo de votar. Nem nesse dia nem no seguinte comeu coisa que pudesse razoavelmente alimentá-lo. Todo ele era agitação, esperança, ambição, sonho. As vinte pessoas que o rodeavam freqüentemente, por uma dessas ilusões do desejo, afiguravam-se-lhe todo o corpo dos votantes; e dizendo-lhe elas que ele tinha uma maioria formidável, ele cria e sorria.

Nas primeiras horas o barbeiro esteve mole e pacato; mas o ardor de José Cândido comunicou-se-lhe; a esperança fez o resto.

— Que tal irá a coisa? perguntava-lhe às vezes José Cândido.

— Soberba! dizia invariavelmente o barbeiro. Vai como se quer!

Enfim, a agitação cessou; começou a apuração dos votos.

(continua...)

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