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#Anedotas#Literatura Brasileira

Um almoço

Por Machado de Assis (1877)

Machado de Assis (1839–1908), maior nome do Realismo brasileiro, publicou “Um Almoço” originalmente no Jornal das Famílias, periódico do Rio de Janeiro, em 1877. O conto narra a história de Germano Seixas, homem levado ao desespero pela fome e salvo por um antigo conhecido. Com fina ironia, Machado investiga temas como gratidão, interesse, vaidade e as ambiguidades das relações humanas, revelando desde cedo sua notável capacidade de análise psicológica.

I

A manhã era das mais puras, frescas e transparentes manhãs do nosso inverno. Não havia sequer um retalho de neblina; o céu estava azul e nu, o sol pacato, a temperatura deliciosa. O Passeio Público convidava a ir gozar ali um pouco de ar e meia hora de silêncio, por isso mesmo estava deserto. Deserto, não. Havia ali um passeador matinal, um só, mas justamente o único de que precisamos para este caso vulgaríssimo.

Chamava-se este passeador Germano Seixas, homem de quarenta e dois anos, mal trajado, pálido e abatido. A passo lento ia ele, cabisbaixo e triste, por uma das alamedas fora, desandando o caminho logo que chegava ao fim, parando a espaços, fitando uma coisa no ar, uma coisa invisível que podia ser um problema ou um consoante, e era nada menos que esse dilema nu e cru: comer ou morrer.

Sim, leitor amigo, Germano Seixas não come há vinte e quatro horas, e acha-se atualmente entre um almoço problemático e um suicídio certo. O estômago e a eternidade o solicitam com igual persistência. Ele cogita, indaga, esmerila a possibilidade de acudir às urgências do estômago; mas nada vê, nada sequer o ilude.

Numa das vezes que voltava a andar, viu surgir-lhe em frente um sujeito conhecido; quis esconder o rosto, mas não pôde. Era tarde.

— Oh! Germano! disse o novo passeante, que fazes aqui a esta hora?

— Eu?... eu...

— Eu quê?

— Ando tomando fresco...

— Pois está calor?

— Talvez... creio que sim...

— Ora essa! Eu ia agora passando pela rua, vi-te a filosofar e entrei. Há quantos meses não nos vemos?

— Uns oito, talvez...

— Upa! Há mais. Mas, enfim, oito ou dez, não importa.

O novo personagem era um sujeito cheio, trajado com limpeza ainda que sem gosto, corado, satisfeito, em paz com a natureza. Apesar de ser ainda muito cedo, trazia um palito na boca, sinal de que almoçara.

Seu nome era José Marques.

Germano olhava para o palito, com que José Marques brincava — olhar de inveja e desespero. Mas o dono do palito não dava por isso; extraía a boceta do bolso e tomava uma pitada.

— Queres?

Uma pitada a um que deseja um bife é certamente a mais pungente ironia do mundo. Germano nem teve ânimo de falar; recusou com um gesto.

— Que tens, homem? disse José Marques; acho-te assim um pouco... Parou.

Seixas olhou para ele, para o chão, para as grades, para os bambus, e só depois destes círculos e retas murmurou a medo:

— Marques, eu estou... estou...

— Estás? Acaba.

— Adeus!

E deu alguns passos.

— Onde vais? clamou José Marques acompanhando-o.

— Para a eternidade!

José Marques alcançou o infeliz deitando-lhe a mão à aba da sobrecasaca. Germano não resistiu, mas não pôde encará-lo.

— Que é isso, homem? disse José Marques com ar de amigável repreensão. Morrer! Pois és tão fraco, tão covarde...

— Não é covardia, é miséria, é fome. Ouve-me. Desde ontem não como nada. Sou chegado a uma terrível situação, desesperada e morta. Minha vida tem sido uma luta impossível com a fatalidade; já não posso lutar; sucumbo. Você pode impedir que hoje me atire à morte, mas amanhã, mas depois, um dia há de vir em que o meu destino tem de cumprir-se.

José Marques ouviu enfiado a narrativa de Germano. Olhou para ele, e leu no rosto o comentário das palavras. A fome e o suicídio davam-se as mãos naqueles olhos encovados e desvairados. José Marques achou em si um bom sentimento, que exprimiu em tom rude:

— Ora vamos! Não sejas tolo! Um homem deve ser superior à fortuna, sem o que não pode ser homem. É preciso contar com a Providência...

— A Providência! interrompeu Germano.

— Sim, porque foi ela que me mandou aqui. Um almoço! Pois a gente mata-se por um almoço! Anda comigo; eu lutarei com a tua sorte, e vencê-la-emos.

Seixas sentiu-se enternecido ao ouvir aquelas palavras de José Marques. Aceitou a mão que este lhe estendeu e apertou-a entre as suas. Na pálpebra fatigada fulgiu uma lágrima de gratidão.

— Marques! exclamou ele com a voz trêmula. Ainda tenho um amigo.

— Um amigo que vale por dez homens. Anda daí!

Marques puxou-o pelo braço e os dois saíram do Passeio Público. Em caminho, Germano referiu a José Marques todos os seus infortúnios daqueles dez ou doze meses. Era um fio interminável de desgraças e contratempos; tentara todos os meios de vida ao alcance de suas habilitações, havendo-se em todos com mais fervor que fortuna; ultimamente servira de guarda-livros em uma loja de São Cristóvão, que faliu quinze dias depois de lá entrar. Vivia afinal de empréstimos e fiados. Mas isso mesmo cessou; a ponto de achar-se entre a vida e a morte naquela funesta manhã.

José Marques ouviu a narração do amigo sinceramente comovido. Interrompia-o para lhe dar ânimo e confiança.

(continua...)

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