Por Euclides da Cunha (1907)
Deslumbrados pelo litoral opulento e pelas miragens de uma civilização, que recebemos emalada dentro dos transatlânticos, esquecemo-nos do interior amplíssimo onde se desata a base física real da nossa nacionalidade. Ali se patenteiam dois casos invariáveis: ou as populações, sobre o solo estéril, vegetam miseravelmente decaídas pelo impaludismo, tão característico das regiões incultas, e vão formando, pela hereditariedade dos estigmas, uma raça de mestiços lastimáveis, agitantes num quase deserto; ou as populações, sobre o solo exuberante, atacam-no ferozmente, a ferro e fogo, nas derribadas e nas queimadas das largas culturas extensivas, e vão fazendo o deserto.
Este caso é notável no refletir o círculo vicioso da atividade nacional. Numa época em que dominam os milagres da engenharia e da biologia industrial — tão grandes os ianques em três anos transformaram num prado o deserto clássico de Colorado-a nossa cultura tem como efeito final o barbarizar a terra.
Malignamo-la, desnudamo-la rudemente, sem a mínima lei repressiva refreando estas brutalidades — e a pouco e pouco, nesta abertura contínua de sucessivas áreas de insolação, vamos ampliando em S. Paulo, em Minas, em todos os trechos, mais apropriados à vida, a faixa tropical que nos malsina.
Não há exemplo mais típico de um progresso às recuadas. Vamos para o futuro sacrificando o futuro, como se andássemos nas vésperas do dilúvio.
Não nos contentamos em resolver a golpes de subscrições intermitentes a fatalidade das secas, que vitimam o norte; vamos além: alargamo-las criando no sul, sobre as vastas áreas insoladas, continuadamente crescentes, todas as mínimas barométricas que no-las atrairão mais tarde...
E tudo isto — esta indiferença ou esta intervenção, ambas prejudiciais, se observa numa época em que o único significado verdadeiramente civilizador do movimento expansionista das raças vigorosas sobre a terra, está todo em afeiçoar os novos cenários naturais a uma vida maior e mais alta — condensando-se o duro esrnagamento das raças incompetentes com a redenção maravilhosa dos territórios...
Baixar texto completo (.txt)CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.