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#Ensaios#Literatura Brasileira

Plano de uma Cruzada

Por Euclides da Cunha (1907)

Médicos ou geômetras, ou geógrafos, todos por igual naturalistas, confundem-se, indistintos, numa tarefa inteiramente nova, a do saneamento da terra. Passam, sem um desvio na profissão complexa, da geologia maciça à física quase espiritualizada, do rádio, ou às indagações biológicas; e inscrita de todo no quadro dos agentes exteriores, a existência humana vai aparecendo-lhes feita um índice abreviado de toda a vida universal.

Pelo menos hoje a amparam leis naturais tão rigorosas, que já não se considera vã a tentativa de bater-se vantajosamente a fatalidade cosmológica dos climas.

Esta empresa belíssima, porém, realiza-se obscuramente. As linhas telegráficas não a espalham, são poucas a irradiarem as notícias e os mínimos pormenores das batalhas. Mal se adivinham no rastro dos exércitos os agrupamentos pacíficos, armados de inofensivos aparelhos, dos que observam, e experimentam, e compram, e induzem; profissionais e operários, estudando as modalidades climáticas ou corrigindo-as, lucidamente teóricos e maciçamente práticos, passando da análise dos extratos do solos à dinâmica das correntes atmosféricas; aqui, redimindo pelas drenagens uma superfície condenada, mais longe fazendo ressurgir, transfigurado pela irrigação, um trato morto, de deserto — e por toda a parte polindo ou afeiçoando o chão maninho, ou os ares perniciosos, às novas vidas que os procuram.

Obedecem a um programa prescrito e inviolável. Na Franca e na Inglaterra as escolas de "Medicina Colonial", onde se matriculam engenheiros oficiais de marinha, denunciam, pelo simples título, a carreira nova destinada a sistematizar todos os dados e a balancear todos os recursos decisivos para esta luta contra os novos meios, desdobrada dos mais simples trabalhos de campo à mais difícil profilaxia das moléstias que lhes são imanentes, de modo a auxiliar a adaptação compensadora do organismo europeu a ambientes tão díspares dos que lhe são habituais.

E assim se transfiguram a Tunísia e o Egito à ourela dos desertos, a ilha de Cuba, recentemente; e vão-se transfigurando o Sudão, a Índia e as Filipinas...

Ora, inegavelmente, um tal objetivo basta a nobilitar as invasões modernas. Redime-lhe todas as culpas e as grandes brutalidades da força esta empresa maravilhosa, que é urna espécie de reconstrução da terra, aparecendo cada dia maior e oferecendo à história novos cenários no seio das paragens mortas que ressurgem. . .

Mas para nós brasileiros, tudo isto é um desapontamento.

Realmente, nesta agitação utilíssima, que fazemos nós?

A parte os Estados do sul, estamos num país que a aclimação, apenas favorecida pela mestiçagem, condena às formas medíocres da humanidade.

A faixa da zona tórrida que entra no litoral do Pacífico ao norte do Peru inflete para o sul, abrange Mato Grosso e vem sair perto de Santos, deixando-se interferir e cortar pela linha tropical. Deste modo o Brasil, na sua maior área, está vinculado pelas condições físicas mais videntes à África Central, à Índia, às ilhas que se salteiam de Madagascar a Borneo e à Nova Guiné, e ao extremo norte calcinado da Austrália - em plena "Régio adusta" fechada à aristocracia dos povos. E um fato plenamente sabido. Ressalta ao mais breve olhar sobre um mapa. Não há fantasias patrióticas que no-lo escondam.

E quaisquer que sejam as teorias e hipóteses e imaginosas teses que desde

Montesquieu se degladiam, irreconciliáveis, acerca do valor das influências extremas — não há desconhecer-se que temos aquele perpétuo coeficiente de redução do nosso desenvolvimento, atirando-nos em plano inferior ao da Argentina e do Chile.

Entretanto, não nos impressionamos. Num tempo em que se demonstra a eficácia da ação do homem sobre o meio, capaz de deslocar os climas, quedamos numa indiferença muçulmana sob o clima que nos fulmina. Não o estudamos mesmo rudimentarmente, pela rama, e com objetivo de o transfigurar. Não temos mesmo esparso, mesmo reduzido nos pontos principais dos Estados, um serviço meteorológico sistemático e plenamente generalizado de modo a permitir uma comparação permanente e contínua das modalidades climáticas. Da terra, sob os infinitos aspectos que vão da rocha à flor, sabemos apenas o que se colhe em vários livros estrangeiros e raras monografias nacionais; e ainda hoje, quando se nos antolha uma bacia de carvão de pedra, ou um veieiro farto de ouro, faz-se-nos mister a importação de um sábio.



(continua...)

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