Por Machado de Assis (1868)
— Que me diz, doutor, ao casamento deste senhorzinho?
— Digo que é um belo casamento.
— Que tolice! casar-se nesta idade!
Um mês depois desta cena estava Meneses no escritório, quando entrou o velho Azevedo com as feições um pouco alteradas.
— Que tem? disse-lhe o advogado.
— Onde está o Marques?
— Não o vejo há oito dias.
— Nem o verá mais, disse Azevedo fulo de cólera.
— Por quê?
— Veja isto.
E mostrou-lhe o Jornal do Commercio desse dia, onde vinha, entre os passageiros para o Rio da Prata, o nome do noivo de Hortênsia.
— Partiu para o Rio da Prata... Não leu isto?
— Leio agora, porque não tenho tempo de ler tudo. Que iria lá fazer?
— Foi acompanhar esta passageira.
E Azevedo apontou para o nome de Sofia.
— Seria isso? balbuciou Meneses, procurando desculpar o amigo.
— Foi. Eu sabia há dias que havia alguma coisa; recebi duas cartas anônimas que me diziam estar o meu futuro genro de amores com aquela mulher. Entristeceu-me o fato. A coisa era tão verdadeira que ele escasseou as suas visitas à minha casa, e a pobre Hortênsia, em duas cartas que me escreveu ultimamente, dizia ter pressentimento de que não seria feliz. Coitadinha! se ela soubesse! há de sabê-lo; é impossível que não saiba! e ela ama-o.
O advogado procurou acalmar o pai de Hortênsia, censurou o procedimento de Marques, e incumbiu-se de escrever-lhe para ver se o trazia de novo ao caminho do dever. Mas Azevedo recusou; disse-lhe que era já impossível; e que, se nas vésperas do enlace Marques procedia assim, o que não faria quando fosse casado?
— É melhor que Hortênsia sofra de uma vez do que a vida inteira, disse ele. Azevedo, nesse mesmo dia, escreveu à filha que viesse para a corte. Não foi difícil convencer a Hortênsia. Ela própria, assustada com o escassear da correspondência de Marques, estava decidida a isso.
Daí a cinco dias estavam todas em casa.
VI
Azevedo procurou contar a Hortênsia o ato do noivo, de modo que a impressão não fosse grande.
Mas a precaução era inútil.
Quando uma criatura ama, como Hortênsia amava, todos os meios de poupar-lhe as comoções são nulos.
O golpe foi profundo.
Azevedo ficou desesperado; se encontrasse Marques nessa ocasião, matava-o. Aquela família, que até então era feliz, e que estava às portas de uma grande felicidade, viu-se repentinamente atirada em profunda agonia, graças ao estouvamento de um homem.
Meneses não foi à casa de Azevedo apenas chegou Hortênsia, por dois motivos: o primeiro era deixar a infeliz moça chorar em liberdade a ingratidão do noivo; depois, era não reavivar a chama do seu próprio amor com o espetáculo daquela dor que exprimia para ele o mais eloqüente dos desenganos. Ver a mulher amada chorar por outro não é a maior dor deste mundo?
VII
Quinze dias depois da volta de Hortênsia, o jovem advogado encontrou Azevedo, e perguntou-lhe notícias da família.
— Todos estão bons. Hortênsia, compreende, está triste, com a notícia daquele fato. Pobre menina! mas há de consolar-se. Apareça, doutor. Está mal conosco?
— Mal por quê?
— Então não nos abandone; apareça. Vai lá hoje?
— Talvez.
— Vá; lá o esperamos.
Meneses não queria ir; mas a retirada absoluta era impossível. Mais tarde ou mais cedo era obrigado àquela visita; foi.
Hortênsia estava divinamente pálida.
Meneses, contemplando aquela figura de martírio, sentiu que mais do que nunca a amava. Aquela dor causava-lhe ciúmes. Doía-lhe que aqueles olhos vertessem lágrimas por outro, e por outro que as não merecia.
— Há ali, pensava ele consigo, há ali um grande coração, que torna um homem feliz só em palpitar por ele.
Meneses retirou-se às onze horas da noite para casa. Sentia que o mesmo fogo de outrora ainda lhe ardia dentro do peito. Estava um pouco coberto, mas não extinto; a presença da moça reavivou a chama.
— Mas que posso esperar? dizia Meneses entrando em casa. Ela sofre, é que o ama; aqueles amores não se esquecem facilmente. Sejamos fortes.
O protesto era sincero; mas a execução era difícil.
Meneses continuou a freqüentar a casa de Azevedo.
Pouco a pouco, Hortênsia adquiria as antigas cores, e posto que não tivesse a mesma alegria de outro tempo, o olhar apresentava uma serenidade de bom agouro. O pai tornava-se contente de ver aquela transformação.
Entretanto, Meneses escrevera a Marques uma carta de exprobração; dizia-lhe que o seu
procedimento não era somente cruel, mas até feio, e procurava chamá-lo à corte. A resposta de Marques foi a seguinte:
“Meu Meneses,
Eu não sou herói de romance, nem tenho vontade disso.
Sou um homem de resoluções súbitas.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Não é mel para a boca do asno. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.