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#Comédias#Literatura Brasileira

Lição de Botânica

Por Machado de Assis (1906)

— Que me deixasse acompanhá-la em seus estudos, repartir o pão do saber com V. Exa. É a primeira vez que a fortuna me depara uma discípula. Discípula é, talvez, ousadia da minha parte...

D. HELENA

— Ousadia, não; eu sei muito pouco; posso dizer que não sei nada.

BARÃO

— A modéstia é o aroma do talento, como o talento é o esplendor da graça. V. Exa. possui tudo isso. Posso compará-la à violeta, — viola odorata de Lineo, — que é formosa e recatada...

D. HELENA, interrompendo

— Pedirei licença à minha tia. Quando será a primeira lição?

BARÃO

— Quando quiser. Pode ser amanhã. Tem certamente notícia da anatomia vegetal...

D. HELENA

— Notícia incompleta.

BARÃO

— Da fisiologia?

D. HELENA

— Um pouco menos.

BARÃO

— Nesse caso, nem a taxonomia5, nem a fitografia6....

D. HELENA

— Não fui até lá.

BARÃO

— Mas há de ir... Verás que mundos novos se lhe abrem diante do espírito. Estudaremos, um por um, todas as famílias, as orquídeas, as jasmíneas, as rubiáceas, as oleáceas, as narcíseas, as umbelíferas...

D. HELENA

— Tudo, desde que se trate de flores.

BARÃO

— Compreendo! amor de família.

D. HELENA

— Bravo! Um cumprimento!

BARÃO, folheando o livro

— A ciência o permite.

D. HELENA, à parte

— O mestre é perigoso. (Alto.) Tinham-me dito exatamente o contrário; disseram-me que o Sr. Barão era... não sei como diga... era...

BARÃO

— Talvez um urso.

D. HELENA

— Pouco mais ou menos.

BARÃO

— E sou.

D. HELENA

— Não creio.

BARÃO

— Por que não crê?

D. HELENA

— Porque o vejo amável.

BARÃO

— Suportável apenas.

D. HELENA

— Demais, imaginava-o uma figura muito diferente, um velho macilento, melenas caídas, olhos encovados.

BARÃO

— Estou velho, minha senhora.

D. HELENA

— Trinta e seis anos.

BARÃO

— Trinta e nove.

D. HELENA

— Plena mocidade.

BARÃO

— Velho para o mundo. Que posso eu dar ao mundo senão a minha prosa científica?

D. HELENA

— Só uma coisa lhe acho inaceitável.

BARÃO

— Qual é?

D. HELENA

— A teoria de que o amor e a ciência são incompatíveis.

BARÃO

— Oh! isso!

D. HELENA

— Dá-se o espírito à ciência e o coração ao amor. São territórios diferentes, ainda que limítrofes.

BARÃO

— Um acaba por anexar o outro.

D. HELENA

— Não creio.

BARÃO

— O casamento é uma bela coisa, mas o que faz bem a uns, pode fazer mal a outros. Sabe que Mafoma7 não permite o uso do vinho aos seus sectários? Que fazem os turcos? Extraem o suco de uma planta, da família das papaveráceas8, bebem-no, e ficam alegres. Esse licor, se nós o bebêssemos, matar-nos-ia. O casamento, para nós, é o vinho turco.

D. HELENA, erguendo os ombros

— Comparação não é argumento. Demais, houve e há sábios casados.

BARÃO

— Que seriam mais sábios se não fossem casados.

5 Ciência da classificação. O mesmo que taxionomia.

6 Parte da ciência que cuida da classificação dos vegetais.

7 Denominação arcaica do profeta Maomé, fundador do Islamismo.

8 Trata-se do ópio (papaver somniferum).

D. HELENA

— Não fale assim. A esposa fortifica a alma do sábio. Deve ser um quadro delicioso para o homem que despende as suas horas na investigação da natureza, fazê-lo ao lado da mulher que o ampara e anima, testemunha de seus esforços, sócia de suas alegrias, atenta, dedicada, amorosa. Será vaidade de sexo? Pode ser, mas eu creio que o melhor prêmio do mérito é o sorriso da mulher amada. O aplauso público é mais ruidoso, mas muito menos tocante que a aprovação doméstica.

BARÃO, depois de um instante de hesitação e luta

— Falemos da nossa lição.

D. HELENA

— Amanhã, se minha tia consentir. (Levanta-se.) Até amanhã, não?

BARÃO

— Hoje mesmo, se o ordenar.

D. HELENA

— Acredita que não perderei o tempo?

BARÃO

— Estou certo que não.

D. HELENA

— Serei acadêmica de Estocolmo?

BARÃO

— Conto que terei essa honra.

D. HELENA, cortejando

— Até amanhã.

BARÃO, o mesmo

— Minha senhora! (D. Helena sai pelo fundo, esquerda, o barão caminha para a direita, mas volta para buscar o livro que ficara sobre a cadeira do sofá.)

Cena X Barão, D. Leonor

BARÃO, pensativo

(continua...)

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