Por Padre Antônio Vieira (1644)
40. Faz duas elegantes epístolas S. Gregório Nazianzeno, uma a Nicóbulo, famoso letrado, em nome de um seu filho, e outra ao filho, em nome do mesmo Nicóbulo.7 E na primeira, pedindo o filho ao pai que lhe dê licença para freqüentar as escolas e seguir as letras, diz assim: Gratia, quam posco, genitor charissime, patris est magis, quam nati; a graça que vos peço, pai meu, é mais para vós que para mim, e mais é vossa que minha. – Se isto dissera o moço que ainda não tinha mais que o desejo de saber, não me admirara o dito; mas falando por boca dele o grande Nazianzeno, do qual com singular elogio afirma a Igreja, que em nenhuma coisa das que escreveu errou, como pode ser verdade que a glória do filho seja mais do pai que do mesmo filho: Patris est magis quam nati? E se esta proposição é verdadeira, segue-se dela, aplicada ao nosso intento, que a glória de Deus é mais de Maria que do mesmo Deus, porque Deus é Filho, e ela Mãe. E por que não faça dúvida o falarmos da glória de um e outro, com a mesma palavra se explica o Santo Padre nas que logo acrescenta: Gloria namque patris, natorum est fama, decusque, ut rursus natis est gloria fama parentum. Como pode ser logo neste caso, ou em algum outro, que a glória do filho seja mais do pai que do filho: Patris est magis, quam nati? Não há dúvida que falou nesta sentença Nazianzeno como quem tão altamente penetrava e distinguia a sutileza dos afetos humanos, entre os quais o amor paterno, como é o mais eficaz e mais forte, é também o mais fino. Diz que a glória do filho é glória do pai, e mais sua, do pai, que do mesmo filho, porque mais se gloriam os pais de a gozarem seus filhos, ou de a gozarem neles, que se a gozaram em si mesmos. E neste sentido se pode dizer, com verdade e propriedade natural, que a glória de Deus, em certo modo, é mais de Maria que do mesmo Deus, porque não sendo sua, como não é, é do Filho unicamente seu, em que ela mais a estima, e da qual mais se gloria, que se pudera ser ou fora sua.
41. Isto é o que disse Nazianzeno ao pai, por boca do filho; vejamos agora o que diz e responde ao filho por boca do pai: Sis sane praestantior ipse parente: Queres, filho, seguir-me na profissão e ser grande, como o mundo e a fama diz que sou, na ciência e nas letras? Sou contente, mas não me contento só com isso; o que peço a Deus é que saias tão eminente nelas, que me faças grandes vantagens, e sejas muito maior que teu pai: Sis sane praestantior ipse parente. Assim diz Nicóbulo, ou Nazianzeno por ele, e dá a razão tão própria do nosso caso, como se eu a dera: Gaudet enim genitor, cum palmami proeripit ipsi virtutis sua progenies: majorque voluptas hinc oritur quam si rediquos praeverteret omnas: Desejo, filho, que sejas maior que eu, porque não há gosto para um pai, como ver que seu filho lhe leva a palma, e de se ver assim vencido dele, se glória muito mais, que se vencera e se avantajara a todos quantos houve no mundo. Mudai agora o nome de genitor em genitríx, e entendei que falou Nazianzeno da glória de Maria no céu, onde tão gloriosamente se vê vencida da glória de seu Filho: Gaudet enitn Genitrtx, cum palmam praeripit ipsi virtutis sua progenies. Vê-se Maria, quando vê a Deus, infinitamente vencida da imensidade de sua glória; mas como é glória não de outrem, senão de seu Filho; sua progenies, o ver-se vencida dele, é a sua vitória e a sua palma: Cum palmam praeripit ipsi. Nas outras contendas, a palma é do vencedor; mas quando contende o filho com o pai ou com a mãe, a palma é do pai ou da mãe vencida, porque a sua maior glória é ter um filho que a vença nela. Este dia de Senhora da Glória, chama-se também da Senhora da Palma, porque, como é tradição dos que assistiram a seu glorioso trânsito, o anjo embaixador de seu Filho, que lhe trouxe a alegre nova, lhe meteu juntamente na mão uma palma, com a qual, como vencedora da morte e do mundo, entre as aclamações e vivas de toda a corte beata, entrasse triunfante no céu. Subi, Senhora, subi, subi ao trono da glória que vos está aparelhado sobre todas as hierarquias, que lá vos espera outra palma infinitamente mais gloriosa. E que palma? Não aquela com que venceis em glória a todos os espíritos bem-aventurados, senão aquela com que, na mesma glória, sois vencida de vosso Filho: Cum palma praeripit ipsi sua progenties. Grande glória da Senhora é, como lhe canta a igreja, ver-se exaltada no céu sobre todos os coros e hierarquias dos espíritos angélicos; grande glória que os principados e potestades, que os querubins e serafins lhe ficam muito abaixo, e que no lugar, na dignidade, na honra, na glória excede incomparavelmente a todos; porém, o ver que nesse mesmo excesso de glória é excedida infinitamente de seu Filho, isso é o de que naquele mar imenso de glória, mais se gloria, isso é o que, naquele verdadeiro paraíso dos deleites eternos, mais a deleita: Majorque voluptas hinc oritur, quam si reliquios praeverteret omnes.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 31 ago. 2026.