Por Gregório de Matos (1696)
Eu esperei de amor outras venturas:
Mas ei-lo vai, tudo o que é de amor, obriga,
Ou já seja favor, ou uma figa,
Da vossa mão são tudo ambrósias puras.
O vosso doce a todos diz, comei-me,
De cheiroso, perfeito, e asseado,
E eu por gosto lhe dar, comi, e fartei-me.
Em este se acabando, irá recado,
E se vos parecer glutão, sofrei-me,
Enquanto vos não peço outro bocado.
A OUTRA FREYRA QUE ESTRANHOU AO POETA SATYRIZAR AO PE. DAMASO DA SYLVA, DIZENDOLHE QUE ERA HUM CLERIGO TAM BENEMERITO, QUE JA ELLA TINHA EMPRENHADO, E PARIDO DELLE.
Confessa Sor Madama de Jesus,
Que tal ficou de um tal Xesmeninês,
Que indo-se os meses, e chegando o mês,
Parira enfim de um Cônego Abestruz.
Diz, que um Xisgaravis deitara à luz
Morgado de um Presbítero montês,
Cara frisona, garras de Irlandês
Com boca de cagueiro de alcatruz.
Dou, que nascesse o tal Xisgaravis,
Que o parisse uma Freira: vade in paz,
Mas que o gerasse o Senhor Padre! arroz
Verdade pois o coração me diz,
Que o Filho foi sem dúvida algum trás,
Para as barbas do Pai, onde se pôs.
A HUMA FREYRA QUE IMPEDIO A OUTRA MANDAR HUM VERMELHO AO POETA DE PRESENTE, DIZENDO, QUE À HAVIA SATYRIZAR.
1
Ó vós, quem quer que sejais,
que nem o nome vos sei,
Freira, a quem nunca falei,
e tão mal de mim falais:
porque à fome me matais,
sem vos dar motivo algum?
pois querendo mandar-me um
vermelho uma Freira guapa,
vós me destes sem ser paga
esse dia de jejum.
2
Não quisestes porfiosa,
que se me mandasse o peixe,
formando para isso um feixe
de razões de bem má prosa:
a Freirinha era medrosa,
e vós, que o peixe intentastes
livrar de tantos contrastes,
de sátiro me arguístes,
e satírica não vistes,
que então me satirizastes.
3
Sendo o conselho tão tosco,
tão bem a Freira o tomou,
que o peixe me não mandou,
por não se espinhar convosco:
mas vós que tendes conosco,
comigo, e minha talia?
e se o peixe vos doía,
em que eu agora me escaldo,
se o fazíeis pelo caldo,
o caldo eu vo-lo daria.
4
Oh: faz a um cuspir no chão
uma sátira o Doutor:
satiriza um Pica-flor,
quanto mais a um peixarrão:
homem de tal condição
não se lhe dá de comer,
e tem pouco que entender,
que o Doutor já fraco, e velho
se há de comer o vermelho
por força o há de morder.
5
Pois destes tão mal conselho,
rogo ao demo, que vos tome,
por deixar morrer à fome
um pobre faminto velho:
rogo ao demo, que ao seu relho
vos prenda com força tanta,
que nunca arredeis a planta,
e que a espinha muita, ou pouca,
que me tirastes da boca,
se vos crave na garganta.
6
Assim como isto é verdade,
que pelo vosso conselho
perdi eu o meu vermelho,
percai vós a virgindade:
que vo-la arrebate um frade;
mas isto que praga é?
praza ao demo, que um cobé
vos plante tal mangará,
que parais um Paiaiá,
mais negro do que um Guiné.
A CERTA FREYRA QUE EM DIA DE TODOS OS SANTOS MANDOU A SEU AMANTE GRACIOSAMENTE POR PAM POR DEOS HUM CARÁ.
1
No dia. em que a Igreja dá
pão por Deus à cristandade,
tenho por má caridade
dares vós, Freira, um cará:
se foi remoque, oxalá,
que vos dêem a mesma esmola,
que não há mulher tão tola,
que por mais honesta, e grave,
não queira levar o cabe,
se pôs descoberta a bola.
2
Descobristes a intenção,
e o desejo revelastes,
quando o cará encaixastes,
a quem vos pedia o pão:
como quem diz: meu Irmão,
se quem toma, se obrigou
a pagar, o que tomou,
vós obrigado a pagar-me,
ficais ensinado a dar-me
o cará, que vos eu dou.
3
Levado desta seqüela
promete o mancebo já
de dar-vos o seu cará,
porque fique ela por ela:
se consiste a vossa estrela
em dar, o que heis de tomar,
cará não há de faltar,
porque o Moço não repara
em levar a cópia, para
o original vos tornar.
4
Se assim for, que assim será,
fareis um negócio raro,
porque um cará não é caro
se por um outro se dá:
e pois o quer pagar já
sem detença, e com cuidado,
se o quereis ver bem pagado,
há de ser com tal partido,
que por um cará cozido
leveis o meu, que anda assado.
5
Vós pois me haveis de dizer
(assentado este negócio)
se quereis fazer socrócio,
porque comigo há de ser:
de carás heis de cozer
uma boa caldeirada,
e de toda esta tachada
tal conserva heis de tomar,
que vos venhais a pagar
do cará co caralhada.
A OUTRA FREYRA QUE MANDOU AO POETA HUM CHOURIÇO DE SANGUE.
(continua...)
MATOS, Gregório de. A freira: ralo, roda e grade In:. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1992.