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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Pança farta e pé dormente

Por Gregório de Matos (1696)

Porque vento tão maldito,
e tão despropositado
só por tal olho saíra,
para nos ir espeidando.

Tomamos porto na pátria
depois de tantos trabalhos,
fomes, que em terra curtimos,
sustos, que no mar tragamos.

Fomos mui bem recebidos,
porque o passado passado,
e sobre os cargos da culpa
nos deram logo outros cargos.

Todos saímos com vara,
como meirinhos do campo
sobre os pobres dos cajus
prendendo, e executando.

Indo a eles uma tarde,
prendemos quase um balaio,
outros deixamos pendentes,
que é o mesmo, que enforcados.

Os maduros se prenderam,
que era a ordem, que levamos,
mas os verdes se enforcaram,
por serem cajus velhacos.

O Meirinho-mor do Reino,
que é Custódio Nunes Daltro,
não larga a vara, e os cajus
andam como homiziados.

Tem uns alcaides pequenos,
que andam correndo esse campo,
e vão ligeiros de pé
por vir pesados de papo.

Este castigo merece
Cururupeba afamado,
porque os engenhos não moem,
e o rio é, quem paga o pato.

Em se acabando os cajus,
as varas vão co diabo,
salvo formos meirinhar
aos airus por esses campos.

DESCREVE A VIAGEM, QUE INTITULOU DOS ARGONAUTAS DA CAJAIBA PARA A ILHA DE GONÇALLO DIAS, ONDE COM SEUS AMIGOS HIA DIVERTIR-SE.

Era a Dominga primeita
desta quaresma presente,
já eu estava na praia,
seriam seis para as sete.

Estava o dia formoso
por ser hora, em que se veste
a esfera de azul, e ouro
com seus renglaves de neve.

A aurora teve bom parto,
pois botou em tempo breve
um menino como um sol
para alegria das gentes.

Gritei eu: ah Sor Gregório,
ele desperto gritou,
aqui estou, e Sor Silvestre.
Só falta o Pissarro moço:

já foi chamá-lo o moleque,
e em se juntando conosco
estamos prestes, e lestes.
Toda a noite não dorrni

com pensamento no beque,
que há de levar-nos à ilha,
onde façamos um frete.
Não tem, que me despertar,

que eu escuso, me despertem,
porque para esta viagem
estive de acordo sempre.
Os três à praia chegaram,

e eu no bergantim co'a gente
mandei embarcar a todos
um por um, ele por ele.
Botamos a Nau no mar

um bergantim excelente
nos nossos mares nascido
obra do estrangeiro mestre.
O alforje lá me esquecia,

disse eu, e a vocês lhes esquece:
mandei logo um negro à casa,
que fosse num pé, e viesse:
Veio logo carregado

o negro com uma serpe
de bananas, e farinha,
e al não disse o tal negrete.
Fomos, e dobrando o mangue

encontrarnos um banquete,
em que vem Miguel Ferreira
cercado de muita gente.
Allons, allons, lhe dissemos,

e ele nos disse: salvete,
trespassamos o saveiro,
que ia então vendendo azeite.
Fomos à costa correndo,

e ajudados da corrente
de Chico o porto tomamos,
que estava manso, e alegre.
Tocou-se logo a trombeta,

que um búzio era potente,
um sinal de haver chegado
a capitânia do Ostende.
Deu-nos uns poucos de apupos,

e vendo, que Chico desce,
embarcou-se, e socorreu-nos
com China, e melado quente.
Fomos seguindo a viagem

tão folgazões, tão alegres,
que até as duas guitarras
iam folgando de ver-se.
Assim chegamos à Ilha,

e sobre areias de neve
dezoito chancas saltavarn,
com que a Ilha se estremece.
Perguntei por Esperança,

e soube, que estava ausente.
Chico, que entonces servia
de guia dos nossos fretes.
Quis-me eu então repelar,

tendo pouco, que repele,
disse mal da minha vida,
de mim mesmo maldizente.
Corremos a Ilha toda,

por sinal, que o bom Silvestre
fez um letreiro na areia,
cuja letra isto refere.
"O Senhor da Ilha é um Asno"

e foi disto tão contente,
como se no tal letreiro
uma asneira não fizesse.
Nós lhe estranhamos a asneira,

e ele arreganhando os dentes,
a celebrou como sua,
por não ter, quem a celebre.
Achamos uma Mulata,

que estava ali num casebre,
que eu não fretei, por ser Nau
já carregada por prenhe.
Tornamo-nos a embarcar

algum tanto descontentes,
porque em toda a Ilha achamos
dois maracujás somente.

DESCREVE ESTANDO NA CAJAIBA HUMA CAVALHADA BURLESCA, QUE ALI FIZERAM PELO NATAL, HUNS FOLGAZÕES.

1
Veio a Páscoa do Natal,
primeira, e segunda oitava,
quando Araújo assentava,
uma festa garrafal:
mas a Cajaíba é tal,
este monte tão mesquinho,
que para um festim de alinho
veio Araújo famoso,
Paulinho com João Cardoso,
Carvalho, e Falcão Marinho.

(continua...)

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