Por Euclides da Cunha (1907)
Ora, se uma série suficiente de realidades observadas desse algum valor a esta demasiado imaginosa conjectura e pudéssemos reconstruir este episódio assombrosamente dramático dos nossos fastos geológicos, bastaria, certo, à nossa intervenção o acompanhar, numa marcha invertida, os rastos indeléveis dos estragos. Encadeadas as torrentes e os rios, e restauradas as velhas represas naturais, ligando-se, mesmo sem a primitiva imponência, os muramentos arruinados das terras — todo aquele território volveria à fisionomia antiga, pelo simples jogo equilibrado dos mesmos agentes físicos que hoje tumultuariamente o devastam.
Mas para que isto suceda, para que nos aparelhemos de uma série completa de elementos garantidores de uma ação decisiva, faz-se mister que este problema urgentíssimo das secas seja um motivo para que demos maior impulso a uma tarefa, que é o mais belo ideal da nossa engenharia neste século: a definição exata e o domínio franco da grande base física da nossa nacionalidade.
Aí está a nossa verdadeira missão.
A outros destinos talvez mais altos: a organização das atividades e do regime geral da riqueza, o doutrinamento filosófico e a direção política, a remoção das dificuldades presentes e o alevantamento das tradições históricas; mas todos esses grandes atos exigem antes de tudo um cenário amplíssimo que os abranja e não se reduza como até hoje às bordas alteadas dos planaltos e à estreita faixa de uma costa desmedida. Tudo quanto fizermos fora deste traçado será vão ou efêmero.
Será o eterno tatear entre as miragens de um progresso falaz e duvidoso, até agora medido pelos estoques das sacas de café, pelas levas de imigrantes e por umas combinações políticas que ninguém entende.
CAPÍTULO III
A expansão imperialista das grandes potências é um fato de crescimento, o transbordar naturalíssimo de um excesso de vidas e de uma sobra de riquezas em que a conquista dos povos se torna simples variante da conquista de mercados. As lutas armadas que daí resultam, perdido o encanto antigo, transformam-se, paradoxalmente, na feição ruidosa e acidental da energia pacífica e formidável das indústrias. Nada dos velhos atributos românticos do passado ou da preocupação retrógrada do heroísmo. As próprias vitórias perderam o significado antigo. São até dispensáveis. A Inglaterra suplantou o Transvaal ao cabo de sucessivas derrotas; amanhã a Rússia, constantemente batida, talvez esmague o Japão. Estão fora dos lances de gênio dos generais felizes e do fortuito dos combates. Vagas humanas desencadeadas pelas forças acumuladas de longas culturas e do próprio gênio de raça, podem golpeá-las à vontade os adversários que as combatem e batem debatendo-se, e que se afogam. Não param. Não podem parar. Impele-as o fatalismo da própria força. Diante da fragilidade dos países fracos, ou das raças incompetentes, elas recordam, na história, aquele horror ao vácuo, com que os velhos naturalistas explicavam os movimentos irresistíveis da matéria.
Revelam quase um fenômeno físico. Por isso mesmo nesta expansão irreprimível, não é do direito, nem da Moral com as mais imponentes maiúsculas, nem de alguma das maravilhas metafísicas de outrora que lhes despontam obstáculos.
E da própria ordem física.
Realmente, à parte a Rússia seguindo para o levante entre os mesmos paralelos, a Europa e os Estados Unidos abandonaram as latitudes onde se formaram; e como, qualquer que seja a flexibilidade do homem para o clima, os limites históricos dos povos se traçam pelas zonas terrestres onde surgiram, o problema capital do imperialismo está menos no adquirir um pedaço de território que na adaptação do território adquirido. Trata-se de inquirir se a raça branca afeiçoada às zonas temperadas, que são as das civilizações duradouras, poderá viver e crescer fora do seu deslumbrante habitat.
Porque as disposições geográficas imutáveis lhe oferecem os maiores cenários precisamente na África adusta, na Ásia meridional ardentíssima ou na Austrália desértica, deixando-lhe como únicas paragens, próprias a uma aclimação rápida, um trecho do Brasil do Sul, a Argentina, o Chile, uma faixa do Canadá, a ponta da África e algumas ilhas do Pacífico.
Daí, seguindo de par com a marcha expansionista, industrial e guerreira, das potências, um movimento científico adrede disposto a facilitar estas mudanças de povos.
Desbravados os caminhos pelos exércitos, estabelecidas as primeiras levas de colonos e delineados os primeiros entrepostos — os governos entregam aos cientistas de todos os matizes a campanha maior e mais longa contra o clima, e toda a responsabilidade deste transplante das civilizações sem prejuízo do organismo das raças que as representam. Felizmente a empresa coincide com a época em que, dominando a máxima especialidade de ofícios, se entrelaçam, em generalizações admiráveis, todos os resultados das ciências. Profissões ontem distintas, fundem-se, vinculadas. A engenharia não lhe bastam os recursos que vão da matemática à química. As próprias exigências da tecnologia sanitária dilatam-se à biologia e às mais altas indagações sobre a vida; enquanto a medicina, deparando na radiologia nascente inesperados elementos, se alonga pela física, ou vai, pela bacteriologia, para a amplitude das ciências naturais.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.