Por Machado de Assis (1868)
Daí a dias efetuou-se a viagem de Hortênsia, que foi com a irmã e a tia para Valença. Marques não dissimulou a contrariedade que sentia com semelhante viagem, cuja razão não compreendia. Mas Hortênsia facilmente o convenceu de que era necessária aquela viagem, e despediu-se dele com lágrimas.
A leitora deste romance já terá reparado que Hortênsia exercia sobre Marques uma influência que tinha causa na superioridade do seu espírito. Amava-o, como devem amar as rainhas, dominando.
Marques sentiu muito a partida de Hortênsia, e o disse a Meneses.
O noivo amava a noiva; mas cumpre dizer que a intensidade do seu afeto não era a mesma que a noiva sentia por ele.
Marques gostava de Hortênsia: é a verdadeira expressão.
Casava-se porque gostava dela, e porque era uma mulher formosa, reqüestada por muitos, elegante, e finalmente porque a idéia do casamento fazia-lhe o efeito de um mistério novo para ele, que já andava ao corrente de todos os mistérios mais ou menos novos.
Agora por que brinco do destino uma mulher superior apaixonou-se por um rapaz tão frívolo?
A pergunta é ingênua e ociosa.
Nada mais comum do que estas alianças entre dois corações antípodas; nada mais raro do que uma união perfeitamente acertada.
Separando-se de Marques, a filha de Azevedo não se esquecia dele um só instante. Apenas chegou a Valença, escreveu-lhe uma carta, repassada de saudades, cheia de protestos.
Marques respondeu com outra epístola igualmente ardente, e cheia de protestos análogos.
Ambos almejavam pelo dia feliz do casamento.
Ficou entendido que a correspondência seria regular e freqüente.
O noivo de Hortênsia não deixava de comunicar ao amigo todas as cartas da noiva, e bem assim as respostas que lhe mandava, e que eram sujeitas à correção literária de Meneses.
O pobre advogado estava em uma posição dolorosa; mas não podia escapar-lhe sem abrir o seu coração
Era o que ele não queria; tinha a altivez do infortúnio.
V
Um dia Meneses levantou-se da cama com a resolução firme de esquecer Hortênsia.
— Por que motivo, dizia ele consigo, hei de alimentar um amor até aqui impossível, agora criminoso? Não tarda muito que os veja casados, e tudo estará acabado para mim. Preciso viver; tenho necessidade do futuro. Há um grande meio; é o trabalho e o estudo. Desse dia em diante Meneses redobrou de esforços; dividiu-se entre o trabalho e o estudo; lia até alta noite, e procurava formar-se completamente na difícil ciência que abraçara.
Procurava conscienciosamente esquecer a noiva do amigo.
Uma noite encontrou Marques no teatro, porque devemos dizer que a fim de não ser confidente dos amores felizes de Hortênsia e Marques, o jovem advogado evitava o mais que podia achar-se com ele.
Marques, apenas o viu, deu-lhe a notícia de que Hortênsia lhe mandara lembranças na última carta.
— É uma carta de queixas, meu caro Meneses; tenho pena de a ter deixado em casa. Como eu me demorei em mandar-lhe a última carta minha, Hortênsia diz-me que eu a esqueço. Vê lá! Mas eu já mandei dizer-lhe que não; que a amo como sempre. Coisas de namorados que não te interessam a ti. Que tens feito?
— Trabalho agora muito, disse Meneses.
— Metido nos autos! que maçada!
— Não; gosto daquilo.
— Ah! gostas... há quem goste do amarelo.
— Os autos são maçantes, mas a ciência é bela.
— É um aforismo que eu dispenso. Melhor processo é aquilo.
E Marques apontou para um camarote de segunda ordem.
Meneses olhou e viu uma mulher vestida de preto, sozinha, olhando para o lado em que os dois rapazes se achavam.
— Que achas? disse Marques.
— É bonita. Quem é?
— É uma mulher...
— Respeito o mistério.
— Não me interrompas: é uma mulher adorável e incomparável...
— Se Hortênsia te ouvisse, disse Meneses sorrindo.
— Oh! ela é mulher à parte, é a minha esposa... está fora de questão. Demais, isto são pecadilhos de pequena monta. Hortênsia há de acostumar-se a eles. Meneses não respondeu; mas disse consigo: Pobre Hortênsia!
Marques propôs a Meneses apresentá-lo à dama em questão. Meneses recusou. Acabado o espetáculo saíram os dois. À porta, Meneses despediu-se de Marques, mas este, depois de indagar por que lado ia ele, disse que o acompanhava. Adiante, num lugar pouco freqüentado, estava um carro parado.
— É o meu carro; vou deixar-te em casa, disse Marques.
— Mas eu ainda vou tomar chá aí em qualquer hotel.
— Toma chá comigo.
E arrastou Meneses para o carro.
No fundo do carro estava a mulher do teatro.
Meneses já não podia recusar e entrou.
O carro seguiu para a casa da mulher, que Marques disse chamar-se Sofia. Duas horas depois, Meneses seguia para casa, a pé, e meditando profundamente no futuro que ia ter a noiva de Marques.
Este não ocultara a Sofia o projeto do casamento, porque a rapariga, estando à mesa do chá, disse a Meneses:
(continua...)
ASSIS, Machado de. Não é mel para a boca do asno. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.