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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

A cristã-nova

Por Machado de Assis (1875)

Rosto inclinado ao chão, transpõe o espaço

Que dos dois a separa. O tenro colo

Curva ante o pai, e na enrugada destra

O ósculo imprime, herdada usança nossa

De filial respeito. As mãos lhe toma

Enternecido o velho; olhos com olhos

Alguns instantes rápidos ficaram,

Até que ele, voltando o rosto ao moço:

“— Perdoai — disse — se paterno afeto

Me atou a língua. Vacilar é justo

Quando à pobre ruína a flor lhe pedem

Que única lhe nasceu — única adorna

A aridez melancólica do extremo,

Pálido sol... Não protesteis! Roubá-la,

Arrancá-la aos meus últimos instantes,

Não o fareis de certo. Pouco importa

Dês que a metade lhe levais da vida,

Dês que seu coração, convosco parte

Afeições minhas. — Ao demais, o sangue

Que lhe corre nas veias condenado,

Nuno, será dos vossos...” Longo e frio

Olhar estas palavras acompanha,

Como a arrancar-lhe o pensamento interno.

A donzela estremece. Nuno o alento

Recobra e fala: — “Puro sangue é ele,

Se lhe corre nas veias. Tão mimosa,

Cândida criatura, alma tão casta,

Inda nascida entre os incréus da Arábia,

Deus a votara à conversão e à vida

Dos eleitos do céu. Águas sagradas

Que a lavaram no berço, já nas veias

O sangue velho e impuro lhe trocaram

Pelo sangue de Cristo...”

VII

Neste instante

Cresce o tumulto exterior. A virgem

Medrosa toda se conchega ao colo

Do velho pai. “Ouvis? Falai! é tempo!”

Nuno prossegue. — “Este comum perigo

Chama os varões à ríspida batalha;

Com eles vou. Se um galardão, entanto,

Merecer de meus feitos, não à pátria

Irei pedi-lo; só de vós espero,

Não o melhor, mas o único na terra,

Que a minha vida...” Rematar não pôde

Esta palavra. Ao escutar-lhe a nova

Da iminente peleja

E a decisão de combater por ela,

Luteiras sente as forças esvair-lhe

A donzela, e bem como ao rijo vento

Inclina o colo o arbusto

Nos braços desmaiou do pai. Volvida

A si, na palidez do rosto o velho

Atenta um pouco, e suspirando: “As armas

Empunhai; combatei; Ângela é vossa.

Não de mim a havereis: ela a si mesma

Toda nas vossas mãos se entrega. Morta

Ou feliz é a escolha; não vacilo:

Seja feliz, e folgarei com ela...”

VIII

Sobre a fronte dos dois, as mãos impondo

Ao seio os conchegou, bem como a tenda

Do patriarca santo agasalhava

O moço Isaac e a delicada virgem

Que entre os rios nasceu18. Delicioso

E solene era o quadro; mas solene

E delicioso embora, ia esvair-se

Qual celeste visão, que acende a espaços

O ânimo do infeliz. A guerra, a dura

Necessidade de imolar os homens,

Por salvar homens, a terrível guerra

Corta o amoroso vínculo que os prende

E à moça o riso lhe converte em lágrimas.

Mísera és tu, pálida flor; mas sofre

Que o calor deste sol te acurve o cálice,

Morta, não; nem já murcha — mas apenas

Como cansada de queimor do estio.

Sofre; a tarde virá serena e branda

A reviver-te o alento; a fresca noite

Choverá sobre ti piedoso orvalho

E mais risonha surgirás à aurora.

IX

Foge à estância da paz o ardido moço;

Esperança, fortuna, amor e pátria

A guerrear o levam. Já nas veias

O vivo sangue irrequieto pulsa,

Como ansioso de correr por ambas,

A bela terra e a suspirada noiva.

Triste quadro a seus olhos se apresenta;

Nos femininos rostos vê pintados

Incerteza e terror; lamentos, gritos

Soam de entorno. Voam pelas ruas

Homens de guerra; homens de paz se aprestam

Para a crua peleja; e, ou nobre estância,

Ou choupana rasteira, armado é tudo

Contra a forte invasão. Nem lá se deixa

Quieto, a sós com Deus, na estreita cela,

O solitário monge que às batalhas

Fugiu da vida. O patrimônio santo

Cumpre salvá-lo. Cruz e espada empunha,

Deixa a serena região da prece

E voa ao torvelinho do combate.

X

Entre os fortes alunos que dirige

O ardido Bento19, a perfilar-se corre

Nuno. Estes são os que o primeiro golpe

Descarregam no atônito inimigo.

Do militar ofício ignoram tudo,

De armas não sabem; mas o brio e a honra

E a lembrança da terra em que primeiro

Viram a luz, e onde o perdê-la é doce,

Essa a escola lhes foi. Pasma o inimigo

Do nobre esforço e galhardia rara,

(continua...)

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