Por Padre Antônio Vieira (1644)
38. A razão e filosofia natural deste afeto é porque ao maior desejo, quando se consegue, segue-se naturalmente o maior gosto, e o maior desejo que tem, e devem ter os pais, é serem tais seus filhos, que não só os igualem, mas os vençam e excedam a eles.
Assim o disse ou cantou ao Imperador Teodósio, Claudiano, tão insigne na filosofia, como na poética. Descreve copiosamente as virtudes imperiais, militares e políticas, com que seu filho Honório se adiantava admiravelmente aos anos, e não só igualava, mas excedia a seu pai, e fazendo uma apóstrofe a Teodósio, lhe diz confiadamente assim: Aspice nunc quacumque micas, seu circulus Austri, magne parens, gelidi seu te meruere Triones, aspice, completur votum, jam natus adaequat te meritis, et quod magis est optabile, vincit: De lá, onde como estrela de Marte, ilustrais o mundo com vossas vitórias, ou seja no círculo do Austro, ou no frio Setentrião, olhai, felicíssimo César, para Honório, vosso filho, e se como imperador tendes conseguido o nome de Grande, chamandovos a voz pública Teodósio, o Magno, a minha, diz Claudiano, não vos invoca com o nome de grande imperador, senão com o de grande pai: Magne parens, e o que celebro mais entre todas as glórias de vossa felicidade, e o que tenho por mais digno do emprego de vossa vista, é que vejais e torneis a ver: Aspice, aspice, que chegastes a ter um filho, o qual não só vos iguala, que é o que desejam os pais, mas que já vos excede e vence, que é o que mais devem desejar: Et quod magis est optabile, vincit. Notai muito as palavras: Quod magis est optabile, e aplicai-as ao nosso caso. O que mais se deve desejar, é o melhor que se pode escolher. E como o que mais devem desejar os pais é que os filhos os vençam e os excedam, bem se conclui, que, se entre a glória de Deus e a da sua Mãe, fora a escolha da mesma Mãe, o que a Senhora havia de escolher para si, é que seu Filho a excedesse e vencesse na mesma glória, como verdadeiramente a excede e vence: Et quod magis est optabile, vincit. Vence Deus incomparavelmente a sua Mãe na glória infinita que goza, mas como este mesmo excesso é o mais que Maria podia desejar, e o melhor que podia escolher como Mãe, por isso se diz com razão que Maria escolheu a melhor parte: Mariam optimam partem elegit.
§IV
Opinião dos Santos Padres: São Sidônio Apolinar. Epístolas de S. Gregório Nazianzeno a Nicóbulo e a seu filho. Carta de Santo Agostinho a Juliana, mãe da virgem Demetríade.
39. Temos ouvido os filósofos que falam pela boca da natureza; ouçamos agora os Santos Padres, que falam pela da Igreja. São Sidônio Apolinar, bispo arvernense e Padre do quinto século, escrevendo a Audaz, prefeito dos reis godos, no tempo em que dominaram Itália, promete-lhe suas orações, e conclui com estas palavras: Deum posco, ut te fillii consequantul; et quod magis decet velle, transcendant: Rogo a Deus por vós e por vossos filhos – diz o eloqüentíssimo Padre – e o que peço para eles é que vos imitem; o que peço para vós é que vos excedam.5 – Que vos imitem, porque isso é o que eles devem fazer; que vos excedam, porque isso é o que vós deveis desejar: Et quod magis decet velle, transcendant. Oh! quisesse Deus que fossem hoje tais os pais e tal a criação dos filhos, que por uns e outros lhe pudéssemos fazer esta oração! Mas é tanto pelo contrário, que podemos chorar da nossa idade, o que o outro gentio lamentava da sua: Aetas parentum peior avis tulit nos nequiores, mox daturos progeniem vitiosiorem.6 Os avós foram maus, os filhos são piores, os netos serão péssimos. Haviam-se de prezar os pais, não só de ser bons, mas de dar tal criação aos filhos, que se pudessem gloriar de serem eles melhores. Mas, deixadas estas lamentações, que não são para dia tão alegre, continuemos a ouvir os Santos Padres, e sejam os dois maiores da Igreja grega e latina: Nazianzeno e Agostinho.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 31 ago. 2026.