Por Gregório de Matos (1696)
4
Alerta, Flores, que ayrada
la rnuerte uzurpa las flores,
en quien colores, y olores
son exemplos de la nada:
alerta pues que prostada
mis brios llorando estoy;
lo que va de ayer a oy
aprended de um muerto sol,
que ayer candido arrebol,
y oy de mi aun sombras doy.
DESTA VEZ SE DEIXOU O POETA ESQUECER NAQUELLA CASA, ESPERANDO OCCASIÃO DE DECLARAR SE, E SEMPRE SE ACOBARDOU A VISTA DA CAUSA, SEMPRE EM LUTAS COM O AMOR, E RESPEYTO.
MOTE
Muero por dizir mi mal,
Va-me la vida en callar.
1
Dos vezes muerto me hallo
de los arpones de Amor,
una al dizir mi dolor,
y otra vez quando lo callo.
No sé corno remediarllo,
pues su implicacion es tal,
que hazes mi dolor mortal,
y con peligro tan fiero,
que quando por callar muero,
Muero por dizir mi mal.
2
Aqui el contrario no es medio
de curar a su contrario,
porque el remedio ordinario
no es para mi mal remedio:
yo tengo un azar, um tedio
a todo, lo que es sanar,
porque todo es peligrar;
si callo, pierdo la vida,
y si digo, mi homicida,
Va-me la vida en callar.
ADMIRAVEL EXPRESSÃO QUE FAZ O POETA DE SEU ATIENCIOSO SILENCIO.
Largo em sentir, em respirar sucinto
Peno, e calo tão fino, e tão atento,
Que fazendo disfarce do tormento
Mostro, que o não padeço, e sei, que o sinto.
O mal, que fora encubro, ou que desminto,
Dentro no coração é, que o sustento,
Com que para penar é sentimento,
Para não se entender é labirinto.
Ninguém sufoca a voz nos seus retiros;
Da tempestade é o estrondo efeito:
Lá tem ecos a terra, o mar suspiros.
Mas oh do meu segredo alto conceito!
Pois não me chegam a vir à boca os tiros
Dos combates, que vão dentro no peito.
TERCEIRA IMPACIENCIA DOS DESFAVORES DE SUA SENHORA.
Dama cruel, quem quer que vós sejais,
Que não quero, nem posso descobrir-vos,
Dai-me agora licença de argüir-vos,
Pois para amar-vos tanto me negais.
Por que razão de ingrata vos prezais,
Não pagando-me o zelo de servir-vos?
Sem dúvida deveis de persuadir-vos
Que a ingratidão a formosenta mais.
Não há cousa mais feia na verdade;
Se a ingratidão aos nobres envilece,
Que beleza fará uma fealdade?
Depois que sois ingrata, me parece
Torpeza hoje, o que ontem foi beldade
E flor a ingratidão, que em flor fenece.
ENCARECE O POETA A GRAÇA E A BIZARRIA COM QUE SUA SENHORA DESEMBARCOU A SEUS OLHOS E FOY LEVADA POR QUATRO ESCRAVOS.
1
Esperando uma bonança,
cansado já de esperar
um pescador, que no mar
tinha toda a confiança:
receoso da tardança
de um dia, e mais outro dia
pela praia discorria,
quando aos olhos de repente
uma onda lhe pôs patente,
quanto uma ausência encobria.
2
Entre as ondas flutuando
um vulto se divisava,
sendo, que mais flutuava,
quem por ela está aguardando:
e como maior julgando
o tormento da demora
como se Leandro fora,
lançar-se ao mar pertendia,
quando entre seus olhos via
quem dentro em seu peito mora.
3
Mora em seu peito uma ingrata
tão bela ingrata, que adrede
pescando as demais com rede,
ela só com a vista mata:
as redes, de que não trata
vinha agora recolhendo;
porque como estava vendo
todo o mar feito uma serra,
vem pescar almas à terra,
de amor pescadora sendo.
4
Logo que à praia chegou,
tratou de desembarcar,
mas sair o sol do mar
só esta vez se admirou:
tão galharda enfim saltou,
que quem tão galharda a via,
justamente presumia,
para mais abono seu,
que era Vênus, que nasceu
do mar, pois do mar saía.
5
Pôs os pés na branca areia,
que comparada cos pés
ficou pez, em que lhe pes,
porque em vê-la a areia areia:
pisando a margem, que alheia
de um arroio os dois extremos,
todos julgamos, e cremos
Galatéia a Ninfa bela,
pois bem que vimos a Estrela,
fomos cegos Polifemos.
6
Toda a concha, e toda a ostrinha,
que na praia achou, a brio,
mas nenhum aljôfar viu,
que todos na boca tinha:
porém se em qualquer conchinha
pérolas o sol produz,
daqui certo se deduz,
que onde quer, que punha os olhos,
produz pérolas a molhos
pois de dois sóis logra a luz.
7
Em uma portátil silha
ocaso a seu sol entrou,
e pois tal peso levou,
não sentiu peso a quadrilha:
vendo tanta maravilha
tanta luz de monte a monte,
abrasar-se o Horizonte,
temi com tanto arrebol,
pois sobre as Pias do sol
ia o carro de Faetonte.
OUTRA VEZ O ASSALTÃO NOVOS PENSAMENTOS DE DECLARAR-SE, E TEMER.
MOTE
Ay de ti, pobre cuydado,
que en la carcel del silencio
has de tener tu razon,
porque lo manda el respeyto.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Ângela. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.