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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Bárbora ou Babu

Por Gregório de Matos (1693)

4
E com toda essa desgraça
por satisfeito me dera,
se com cair merecera
sequer cair-vos em graça:
mas porque, Babu, eu faça
desta queda estimação
inda sobeja razão,
se a queda motivo é
de prostar-me a vosso pé,
para beijar-vos a mão.

VENDO-SE FINALMENTE EM HUMA OCCASIÃO TAM PERSEGUIDA ESTA DAMA
DO POETA, ASSENTIO NO PREMIO DE SUAS FINEZAS; COM CONDIÇÃO POREM,
QUE SE QUERIA PRIMEYRO LAVAR; AO QUE ELLE RESPONDEO COM A SUA
COSTUMADA JOCOSERIA.

1
O lavar depois importa,
porque antes em água fria
estarei eu noite, e dia
batendo-vos sempre à porta:
depois que um homem aporta,
faz bem força por entrar,
e se hei de o postigo achar
fechado com frialdade,
antes quero a sujidade,
porque enfim me hei de atochar.

2
Não serve o falar de fora,
Babu, vós bem o sabeis,
dai-me em modo, que atocheis,
e esteja ele sujo embora:
e se achais, minha Senhora,
que estes são os meus senãos,
não fiquem meus gostos vãos,
nem vós por isso amuada,
que ou lavada, ou não lavada
cousa é, de que levo as mãos.

3
Lavai-vos, minha Babu,
cada vez que vós quiseres,
já que aqui são as mulheres
lavandeiras do seu cu:
juro-vos por Berzabu,
que me dava algum pesar
vosso contínuo lavar,
e agora estou nisso lhano,
pois nunca se lava o pano,
senão para se esfregar.

4
A que se esfrega amiúdo
se há de amiúdo lavar,
porque lavar, e esfregar
quase a um tempo se faz tudo:
se vós por modo sisudo
o quereis sempre lavado,
passe: e se tendes cuidado
de lavar o vosso cujo
por meu esfregão ser sujo,
já me dou por agravado.

5
Lavar a carne é desgraça
em toda a parte do Norte,
porque diz, que dessa sorte
perde a carne o sal, e graça:
e se vós por esta traça
lhe tirais ao passarete
o sal, a graça, e o cheirete,
em pouco a dúvida topa,
se me quereis dar a sopa,
dai-ma com todo o sainete.

6
Se reparais na limpeza,
ides enganada em suma,
porque em tirando-se a escuma,
fica a carne uma pureza:
fiai da minha destreza,
que nesse apertado caso
vos hei de escumar o vaso
com tal acerto, e escolha,
que há de recender a olha
desde o Nascente ao Ocaso.

7
As Damas, que mais lavadas
costumam trazer as peças,
e disso se prezam, essas
são Damas mais deslavadas:
porque vivendo aplicadas
a lavar-se, e mais lavar-se
deviam desenganar-se,
de que se não lavam bem,
porque mal se lava, quem
se lava para sujar-se.

8
Lavar para me sujar
isso é sujar-me em verdade,
lavar para a sujidade
fora melhor não lavar:
do que serve pois andar
lavando antes que mo deis?
Lavai-vos, quando o sujeis,
e porque vos fique o ensaio,
depois de foder lavai-o,
mas antes não o laveis.

A BARBORA HUMA MULATA MERETRIZ A QUEM CERTOS FRADES LHE
PASSARAM HUM GERAL, DO QUAL FICOU TAM PERIGOSA QUE VEIO A
SACRAMENTAR-SE.

1
Não era muito, Babu,
o sentires dor de madre,
se vos pespegou um Padre,
ou Padres o sururu:
grandes poderes tens tu,
e vigor mais que papal,
que no clima Americal,
onde um Rodela te topa,
estando fora de Europa,
escamastes um geral.

2
A Macotinha, e Jelu,
Luísa, e Inácia levaram
o geral, porém ficaram,
não como ficaste tu:
ou foi o caralho açu,
que o interno te burniu,
porque jamais ninguém viu,
que molestasse um caralho,
havendo tanto escorralho,
como o teu vaso cumpriu.

3
Se fora a primeira vez,
seria por fraca via,
mas a tua serventia
mil velhacarias fez:
e se tu tão puta és,
e sentisse o tal baldão,
qualquer era fradigão,
dos que dão treze por dúzia,
e já que foste brandúzia,
sente a dor do madrigão.

4
Chegaste do caso tal,
a tomares o Senhor,
e fora muito melhor
dar-te Berzabu bestial:
que quem pecado mortal
comete, e dele enfermou
logo o diabo o levou,
e quem se serve do demo,
navegando a vela, e remo
nos infernos ancorou.

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