Por Gregório de Matos (1696)
3
Se Clóri de mui querida
é alma do meu viver,
porque a morte hei de temer
dada pelas mãos da vida?
que vida mais bem perdida,
que dar eu, não sendo minha,
a vida, a quem ma sustinha?
e quando não baste isto,
sei eu, por havê-la visto,
Que bastante causa tinha.
4
Bastante causa tivera,
já que não para queixar-me,
para morrer, e matar-me
por calar pena tão fera:
e inda que a fineza era
calar a rigor, de quem
me mata a puro desdém,
calar por mais perfeição
não tira o ter eu razão,
Para queixar-me de alguém.
FOY PREZA MARIANNA PELOS REPETIDOS ESCANDALOS COM THOMAZ PATRICIO POR ORDEM DE SUA ILUSTRISSIMA, E RAYOVOSO O POETA DO PASSADO LHE FEZ ESTE.
SONÊTO
Esta prêsa uma Dama do Xadrês,
um nôvo serafim de Satanás,
Aquela, que em querer muito a Tomás,
Esta já feita a roupa de Francês.
Mudou de herege a Idolatrino Inglês,
E sacrifica tanto êsse Mangaz,
Que de tudo, o que tem vítima faz,
E dá cos burros n'água desta vez.
Prêsa uma Dama? nome de Jesus!
Mas eu digo, que foi reto o Juiz,
Que a condena à prisão por esta cruz;
Porque o caso é tremendo, e o mundo diz,
Que se mata uma Rôla, uma Avestruz
Por um herege de tão grão nariz.
A FUGIDA QUE FEZ DA CADEYA MARIANNA COM O FAVOR DO CHANCELLER DA RELAÇÃO DESTE ESTADO, COM QUEM ELLA TINHA ALGUNS DESHONESTOS DIVERTIMENTOS
DÉCIMAS
1
Na gaiola episcopal
caiu por dar no pinguelo
um pássaro de cabelo
pouco maior, que um Pardal:
O Passareiro real
ou de lastima, ou carinho,
ou já por dar-lhe co ninho,
brecha lhe abriu na gaiola:
não quis mais a passarola,
foi-se como um passarinho.
2
A Rolinha, que as amola,
zomba, de quem se desvela,
por colhê-la na esparrela,
ou tomá-la na gaiola:
não é passarinho a Rôla,
que no débil embaraço
caia de linho, ou sedaço,
salvo um Mazulo nariz
se lhe põem por chamariz,
que então cairá no laço.
3
Se o Prelado tem jactância
de a tornar a reduzir,
ojos, que la vieron ir,
no la veran mas en Francia:
que ela de estância em distância,
e de amigo em amigão
assegura o cordovão,
porque é segura cautela,
que quem se prende com ela,
não a dá a outra prisão.
4
Quem no mundo há de ter modos
de prender uma mulher
tão destríssima em prender,
que de um olhar prende a todos:
que Medos, Partos, ou Godos,
que Ministro, ou Regedor
a há de prender em rigor,
se ela àqueles, que por lei
prendem da parte d'El-Rei
prende da parte do Amor.
MATOS, Gregório de. Mariana, apelidada a Rola. In:. Obra Completa. Vol. V. Salvador: Janaína, 1972.