Por Gregório de Matos (1696)
Estes poemas compõem a lírica satírica de Gregório de Matos, produzida na Bahia do século XVII. O autor, conhecido pelo estilo mordaz, volta sua pena contra "letrados", advogados e figuras públicas de Salvador. As composições, marcadas pelo uso de ironia, paródia e linguagem coloquial, expõem as pretensões sociais, a corrupção e os costumes de uma elite colonial que o poeta considerava intelectualmente medíocre e moralmente questionável, frequentemente ridicularizando seus rivais e desafetos.
CONTRA OUTROS SATIRIZADOS DE VÁRIAS PENAS QUE O ATTRIBUHIRÃO AO POETA, NEGANDO-LHE A CAPACIDADE DE LOUVAR.
1
Saiu a sátira má,
e empurraram-ma os preversos
que nisto de fazer versos
eu só tenho jeito cá:
noutras obras de talento
eu sou só o asneirão,
em sendo sátira, então
eu só tenho entendimento.
2
Acabou-se a Sé, e envolto
na obra o Sete Carreiras
enfermou de caganeiras,
e fez muito verso solto:
tu, que o Poeta motejas,
sabe, que andou acertado
que pôr na obra louvado
é costume das Igrejas.
3
Correm-se muitos carneiros
na festa das Onze mil,
e eu com notável ardil
não vou ver os cavaleiros:
não vou ver, e não se espantem,
que algum testemunho temo,
sou velho, pelo que gemo,
não quero, que mo levantem.
4
Querem-me aqui todos mal,
mas eu quero mal a todos,
eles, e eu por nossos modos
nos pagamos tal por qual:
e querendo eu mal a quantos
me têm ódio tão veemente
o meu ódio é mais valente,
pois sou só, e eles são tantos.
5
Algum amigo, que tenho,
(se é, que tenho algum amigo)
me aconselha, que, o que digo,
o cale com todo o empenho:
este me diz, diz-me estoutro,
que me não fie daquele,
que farei, se me diz dele,
que me não fie aqueloutro.
6
O Prelado com bons modos
visitou toda a cidade,
é cortesão na verdade,
pois nos visitou a todos:
visitou a pura escrita
o Povo, e seus comarcãos,
e os réus de mui cortesãos
hão de pagar a visita.
7
A Cidade me provoca
com virtudes tão comuas:
há tantas cruzes nas ruas,
quantas eu faço na boca:
os diabos a seu centro
foi cada um por seu cabo,
nas ruas não há um diabo,
há os das portas a dentro.
8
As damas de toda a cor
como tão pobre me vêem,
as mais lástima me têm,
as menos me têm amor:
o que me tem admirado
é, fecharam-me o poleiro
logo acabado o dinheiro,
deviam ter-mo contado.
A HUM IGNORANTE POETA, QUE POR SUAS LHE MOSTROU HUMAS DECIMAS DE ANTONIO DA FONCECA SOARES.
Protótipo gentil do Deus muchacho,
poeta singular o mais machucho,
Que no mais levantado do Cartucho
Quis trazer o Pegaso por penacho.
Triunfante ao Parnaso entrou gavacho
Com décimas do métrico Capucho;
Se são suas merece um bom cachucho,
Que por boas conseguem bom despacho.
Mas o Sol, que na Aurora do desfecho
Os párpados abrindo vos viu micho,
Por ser vosso talento de relexo
Logo disse não éreis vós o bicho,
Que vos sente nas ancas este sexo,
Que vos limpe essas barbas cum rabicho.
DESCREVE A VIDA ESCOLASTICA.
Mancebo sem dinheiro, bom barrete,
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.
Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.
A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante.
Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante.
AO MESMO ASSUMPTO.
Devem de ter-me aqui por um Orate
Nascido lá na gema do Lubeque,
Ou por filho de algum triste Alfaqueque
Daqueles, que trabucarn lá em Ternate.
Porque um me dá a glosar um desparate,
E quer, que se lhe imprima com crasbeque;
Outro vem entonando como um Xeque,
E fala pela língua de um mascate.
Anda aqui a poesia a todo o trote,
E de mim corre já como um lambique
Não sendo eu destilador brichote.
Outro vem, que casou em Moçambique,
E vive co'a razão de vinho, e brote,
Que o Sogro deu, e o Clérigo Cacique.
A HUM FULANO DA SYLVA EXCELENTE CANTOR, OU POETA.
Tomas a Lira, Orfeu divino, ta,
A lira larga de vencido, que
Canoros pasmos te prevejo, se
Cadências deste Apolo ouviras cá.
Vivas as pedras nessas brenhas lá
Mover fizeste, mas que é nada vê:
porque este Apolo em contrapondo o ré,
Deixa em teu canto dissonante o fá.
Bem podes, Orfeu, já por nada dar
A Lira, que nos astros se te pôs
Porque não tinha entre os dous Pólos par.
Pois o Silva Arião da nossa foz
Dessas sereias músicas do mar
Suspende os cantos, e emudece a voz.
MANDANDO GONÇALLO SOARES DA FRANCA SENDO AINDA ESTUDANTE PEDIR AO POETA HUM LIVRO INTITULADO REPUBLICA GENTILICA EM OCCASIÃO, QUE AMBOS ESTAVAM DESFAVORECIDOS DE SUAS DAMAS, O POETA LHO MANDOU COM ESTA DÉCIMA.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Letrados. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.