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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

A freira: ralo, roda e grade

Por Gregório de Matos (1696)

Não sei, quem vos tentou, ou quem vos fez
Cruel, que rigor tanto em vós produz,
Pois convosco não val, e em mim não luz
Fé de Tudesco, e amor de Português.

Se contra vós algum delito fiz,
Que do vosso favor fora me traz,
Vós não podeis ser Parte, e mais Juiz.

Não queirais dar contudo a trasbarrás,
Nem vos façais de mim xarrisbarris,
Que me armeis por diante, e por detrás.

À MESMA FREYRA JA DE TODO MODERADA DE SEUS ARRUFOS E CORRESPONDENDO AMANTE AO POETA.

A bela composição
dos dous nomes, que lograis,
bem explica, o que cifrais
nessa rara perfeição:
porque sendo em conclusão
por Maria Mar, e sendo
Graças por Ana, já entendo,
que quem logra a sorte ufana
de estar vendo a Mariana
um mar de graça está vendo.

À MESMA FREYRA EM OCCASIÃO, QUE O POETA À OUVIU CANTAR COM AQUELLA ESPECIAL GRAÇA QUE PARA ISSO TINHA.

Oh quem de uma Águia elevada
tIvera uma pena! eu creio,
que só então com fortuna
descrevera a sol tão belo.

Porém se tenho de Fênix
as penas dentro em meu peito
pelo abrasado, em que vivo
sejam chamas, quanto escrevo.

Mas não: sejam lavaredas
à vista desse luzeiro,
que a vista de sol tão claro
escurece um vivo incêndio.

Contudo se o desafogo
se permite a todo o peito,
por não estalar esta alma,
coragão, desabafemos.

Convosco falo, Senhora,
de minhas atenções centro,
que a voz de um vale humilhado
também chega ao monte excelso

Recebi o sacrifício
de um profundo rendimento,
que as Deidades soberanas
aceitam toscos obséquios.

Não culpeis esta ousadia,
nem crimineis tanto excesso
que o destino de alta estrela
me influi um amante excesso.

Vi esse pasmo, que adoro,
ouvi a voz, que venero,
de ver fiquei sem sentido,
e de ouvir sem pensamentos.

Por ouvir fico enlevado,
e por ver fico suspenso,
se o ver me prendeu o corpo,
o ouvir a alma me tem preso.

Um pasmo de formosura
do corpo é somente enleio,
e a voz mais doce, e canora
é só d'alma firme emprego.

Mas ser cantora suave,
e ser gentil com portento
é ser labirinto, e pasmo
d'alma, e corpo ao mesmo tempo.

Porém se em laços tão doces
for eterno prisioneiro,
não terão prêmio mais alto
meus firmíssimos intentos.

No nome sois mar de graça,
de prendas sois mar imenso,
não permitais, que naufrague
meu arnor sem ter remédio.

Concedei-me um mar bonança,
porto seguro, e sereno,
que a esperança de servir-vos
é âncora de querer-vos.

Na firmeza sou penhasco,
mas pronto a qualquer aceno,
por isso as ondas mais brandas
desse mar serei ligeiro.

O vento do vosso agrado
sopra sobre mim preceitos,
serei baixel, que obediente
voe como um pensamento.

Seguirei o vosso norte,
e por navegar direito,
só esse sol seja o astro,
que eu observe com empenho.

Não haverá tempestade,
por brabo que sopre o vento,
que obrigue a mudar de rumo,
quando em vosso mar navego.

Venham pois de vossas luzes
os mais brilhantes reflexos,
porque possa encher a altura
da viagem dos afetos.

Mandai, que a vossa presença
chegar possa a salvamento,
pois ao mar dessas ternuras
com vento em popa navego.

À MESMA FREYRA MANDANDOLHE HUM PRESENTE DE DOCES.

1
Um doce, que alimpa a tosse,
cousa muito grande era,
se eu não trocara, e pudera
a doçura pelo doce:
se quisera Amor, que eu fosse
tão digno, e tal me fizera,
que juntos vos merecera
ora o doce, a doçura ora,
maldita a minha alma fora,
se tudo vos não comera.

2
Mas há grande distinção.
e discrímen temerário
entre os doces de um almário,
e as doçuras de uma mão:
e quem é tão sabichão
destro no ré mi fá sol
mal pode errar, em seu prol,
quando sabe, que a doçura
se se come, é por natura,
e os mais doces por bemol.

3
O que enfim venho a dizer,
é, que se à minha ventura
negais comer da doçura,
doces não hei de comer:
não hei de troca fazer,
mais que a palos me moais,
e se comigo apertais,
que os vossos doces almoce,
é fazer-me a boca doce,
quando a mim é por demais.

4
Trocai o doce em favor,
e curai meu mal tão grave
co'aquela ambrósia suave,
com que foi criado o Amor:
o néctar será melhor,
que destilam vossas flores,
que são tão secos favores
são de amor efeitos pecos,
tão mais são amores secos,
como são secos amores.

AO MESMO ASSUMPTO.

Senhora minha: se de tais clausuras
Tantos doces mandais a uma formiga,
Que esperais vós agora, que vos diga,
Se não forem muchisimas doçuras.

(continua...)

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