Por Machado de Assis (1864)
Em vão! Contrário a amor é nada o esforço humano,
É nada o vasto espaço, é nada o vasto oceano!
Vou, sequioso espírito,
Cobrando novo alento
N'asa veloz do vento
Correr de mar em mar;
Posso, fugindo ao cárcere,
Que à terra me tem preso,
Em novo ardor aceso,
Voar, voar, voar!
Então, se à hora lânguida
Da tarde que declina
Do arbusto da colina
Beijando a folha e a flor
A brisa melancólica
Levar-te entre perfumes
Uns tímidos queixumes
Ecos de mágoa e dor;
Então, se o arroio tímido
Que passa e que murmura
À sombra da espessura
Dos verdes salgueirais,
Mandar-te entre os murmúrios
Que solta nos seus giros,
Uns como que suspiros
De amor, uns ternos ais;
Então, se no silêncio
Da noite adormecida
Sentires—mal dormida
Em sonho ou em visão,
Um beijo em tuas pálpebras,
Um nome aos teus ouvidos
E ao som de uns ais partidos
Pulsar teu coração.
Da mágoa que consome
O meu amor venceu
Não tremas: — é teu nome,
Não fujas— que sou eu!
ASSIS, Machado de. Versos a Corina. In: ASSIS, Machado de. Crisálidas. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1864.