Versos a Corina MACHADO DE ASSIS (1864) Neste poema, Machado de Assis idealiza Corina, unindo-a ao conceito de beleza eterna e inspiração divina. O poema percorre a busca do eu lírico por uma perfeição que funde ser e amor, revelando a alma do jovem Machado. O poema compõe “Crisálidas” (1864), coletânea de poemas que marca a estreia poética de Machado de Assis (1839–1908). O volume reflete a transição entre o Romantismo da época e a agudeza psicológica que se tornaria sua marca registrada. Tacendo il nome di questa gentilissima  DANTE I TU NASCESTE de um beijo e de um olhar. O beijo Numa hora de amor, de ternura e desejo, Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor, Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor; Depois, depois vestindo a forma peregrina, Aos meus olhos mortais, surgiste-me, Corina! De um júbilo divino os cantos entoava A natureza mãe, e tudo palpitava, A flor aberta e fresca, a pedra bronca e rude De uma vida melhor e nova juventude. Minh'alma adivinhou a origem do teu ser; Quis cantar e sentir; quis amar e viver A luz que de ti vinha, ardente, viva, pura, Palpitou, reviveu a pobre criatura; Do amor grande elevado abriram-se-lhe as fontes Fulgiram novos sóis, rasgaram-se horizontes Surgiu, abrindo em flor, uma nova região; Era o dia marcado à minha redenção. Era assim que eu sonhava a mulher. Era assim: Corpo de fascinar, alma de querubim; Era assim: fronte altiva e gesto soberano Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano Em olhos senhoris uma luz tão serena, E grave como Juno, e belo como Helena! Era assim, a mulher que extasia e domina A mulher que reúne a terra e o céu: Corina! Neste fundo sentir, nesta fascinação, Que pede do poeta o amante coração? Viver como nasceste, ó beleza, ó primor De uma fusão do ser, de uma efusão do amor. Viver, —fundir a existência Em um ósculo de amor, Fazer de ambas—uma essência, Apagar outras lembranças, Perder outras ilusões, E ter por sonho melhor O sonho das esperanças De que a única ventura Não reside em outra vida, Não vem de outra criatura; Confundir olhos nos olhos, Unir um seio a outro seio, Derramar as mesmas lágrimas E tremer do mesmo enleio, Ter o mesmo coração, Viver um do outro viver... Tal era a minha ambição. Donde viria a ventura Desta vida? Em que jardim Colheria esta flor pura? Em que solitária fonte Esta água iria beber'? Em que incendido horizonte Podiam meus olhos ver Tão meiga, tão viva estrela, Abrir-se e resplandecer? Só em ti: —em ti que és bela, Em ti que a paixão respiras, Em ti cujo olhar se embebe Na ilusão de que deliras, Em ti, que um ósculo de Hebe Teve a singular virtude De encher, de animar teus dias, De vida e de juventude... Amemos! diz a flor à brisa peregrina, Amemos! diz a brisa, arfando em torno à flor; Cantemos esta lei e vivamos, Corina, De uma fusão do ser, de uma efusão do amor. II A minha alma, talvez, não é tão pura, Como era pura nos primeiros dias; Eu sei; tive choradas agonias De que conservo alguma nódoa escura, Talvez. Apenas à manhã da vida Abri meus olhos virgens e minha alma. Nunca mais respirarei a paz e a calma, E me perdi na porfiosa lida. Não sei que fogo interno me impelia À conquista da luz, do amor, do gozo, Não sei que movimento imperioso De um desusado ardor minha alma enchia. Corri de campo em campo e plaga em plaga. (Tanta ansiedade o coração encerra!) A ver o lírio que brotasse a terra, A ver a escuma que cuspisse — a vaga. Mas, no areal da praia, no horto agreste, Tudo aos meus olhos ávidos fugia... Desci ao chão do vale que se abria, Subi ao cume da montanha alpestre. Nada! Volvi o olhar ao céu. Perdi-me Em meus sonhos de moço e de poeta; E contemplei, nesta ambição inquieta Da muda noite a página sublime. Tomei nas mãos a citara saudosa E soltei entre lágrimas um canto. A terra brava recebeu meu pranto E o eco repetiu-me a voz chorosa. Foi em vão. Como um languido suspiro, A voz se me calou, e do ínvio monte Olhei ainda as linhas do horizonte, Como se olhasse o último retiro. Nuvem negra e veloz corria solta O anjo da tempestade anunciando Vi ao longe as alcíones cantando Doidas correndo à flor da água revolta. Desiludido, exausto, ermo, perdido, Busquei a triste estância do abandono E esperei, aguardando o ultimo sono Volver à terra, de que foi nascido. "Ó Cibele fecunda, é no remanso Do teu seio que vive a criatura; Chamem-te outros morada triste e escura, Chamo-te glória, chamo-te descanso!" Assim falei. E murmurando aos ventos Uma blasfêmia atroz — estreito abraço Homem e terra uniu, e em longo espaço Aos ecos repeti meus vãos lamentos. Mas, tu passaste... Houve um grito Mas, tu passaste... Houve um grito Dentro de mim. Aos meus olhos Visão de amor infinito, Visão de perpétuo gozo Perpassava e me atraía, Como um sonho voluptuoso De sequiosa fantasia. Ergui-me logo do chão, E pousei meus olhos fundos Em teus olhos soberanos, Ardentes, vivos, profundos, Como os olhos da beleza Que das escumas nasceu... Eras tu, maga visão Eras tu o ideal sonhado Que em toda a parte busquei, E por quem houvera dado A vida que fatiguei; Por quem verti tanto pranto, Por quem nos longos espinhos Minhas mãos, meus pés sangrei! Mas se minh'alma, acaso, é menos pura De que era pura nos primeiros dias, Por que não soube em tantas agonias Abençoar a minha desventura; Se a blasfêmia os meus lábios poluíra, Quando, depois de tempo e do cansaço, Beijei a terra no mortal abraço E espedacei desanimado a lira; Podes, visão formosa e peregrina, No amor profundo, na existência calma Desse passado resgatar minh'alma E levantar-me aos olhos teus, -- Corina! III Quando voarem minhas esperanças Como um bando de pombas fugitivas; E destas ilusões doces e vivas Só me restarem pálidas lembranças; E abandonar-me a minha mãe Quimera, Que me aleitou aos seios abundantes; E vierem as nuvens flamejantes Encher o céu da minha primavera; E raiar para mim um triste dia, Em que, por completar minha tristeza Nem possa ver-te, musa da beleza, Nem possa ouvir-te, musa da harmonia; Quando assim seja, por teus olhos juro, Voto minh'alma à escura soledade, Sem procurar melhor felicidade, E sem ambicionar prazer mais puro, Como o viajor que, da falaz miragem, Volta desenganado ao lar tranqüilo E procura, naquele último asilo, Nem evocar memórias da viagem; Envolvido em mim mesmo, olhos cerrados A tudo mais,—a minha fantasia As asas colherá com que algum dia Quis alcançar os cimos elevados. És tu a maior glória de minha alma, Se o meu amor profundo não te alcança De que me servirá outra esperança? Que glória tirarei de alheia palma? IV Tu que és bela e feliz, tu que tens por diadema A dupla irradiação da beleza e do amor; E sabes reunir, como o melhor poema, Um desejo da terra e um toque do Senhor; Tu que, como a ilusão, entre névoas deslizas Aos versos do poeta um desvelado olhar, }Corina, ouve a canção das amorosas brisas, Do poeta e da luz, das selvas e do mar. AS BRISAS Deu-nos a harpa eólia a excelsa melodia Que a folhagem desperta e torna alegre a flor, Mas que vale esta voz, ó musa da harmonia, Ao pé da tua voz, filha da harpa do amor? Diz-nos tu como houveste as notas do teu canto? Que alma de serafim volteia aos lábios teus? Donde houveste o segredo e o poderoso encanto Que abre a ouvidos mortais a harmonia dos céus? A LUZ Eu sou a luz fecunda, alma da natureza; Sou o vivo alimento à viva criação. Deus lançou-me no espaço. A minha realeza Vai até onde vai meu vívido clarão. Mas, se derramo vida a Cibele fecunda, Que sou eu ante a luz dos teus olhos? Melhor, A tua é mais do céu, mais doce, mais profunda. Se a vida vem de mim, tu dás a vida e o amor. AS ÁGUAS Do lume da beleza o berço celebrado Foi o mar; Vênus bela entre espumas nasceu. Veio a idade de ferro, e o nume venerado Do venerado altar baqueou: —pereceu. Mas a beleza és tu. Como Vênus marinha Tens a inefável graça e o inefável ardor. Se paras, és um nume; andas, uma rainha. E se quebras um olhar, és tudo isso e és amor. Chamam-te as águas, vem! tu irás sobre a vaga. A vaga, a tua mãe que te abre os seios nus, Buscar adorações de uma plaga a outra plaga. E das regiões da névoa às regiões da luz! AS SELVAS Um silêncio de morte entrou no seio às selvas. Já não pisa Diana este sagrado chão, Nem já vem repousar no leito destas relvas Aguardando saudosa o amor e Endimião. Da grande caçadora a um solicito aceno Já não vem, não acode o grupo jovial; Nem o eco repete a flauta de Sileno, Após o grande ruído a mudez sepulcral. Mas Diana aparece. A floresta palpita, Uma seiva melhor circula mais veloz; É vida que renasce, é vida que se agita; À luz do teu olhar, ao som da tua voz! O POETA Também eu, sonhador, que vi correr meus dias Na solene mudez da grande solidão, E soltei, enterrando as minhas utopias, O último suspiro e a última oração; Também eu junto à voz da natureza, E soltando o meu hino ardente e triunfal, Beijarei ajoelhado as plantas da beleza, E banharei minh'alma em tua luz, — Ideal! Ouviste a natureza? Às súplicas e às mágoas Tua alma de mulher deve de palpitar; Mas que te não seduza o cântico das águas, Não procures, Corina, o caminho do mar! V Guarda estes versos que escrevi chorando Como um alivio à minha soledade, Como um dever do meu amor, e quando Houver em ti um eco de saudade Beija estes versos que escrevi chorando. Único em meio das paixões vulgares Fui a teus pés queimar minh`alma ansiosa, Como se queima o óleo ante os altares; Tive a paixão indômita e fogosa, Única em meio das paixões vulgares. Cheio de amor, vazio de esperança, Dei para ti os meus primeiros passos Minha ilusão fez-me talvez, criança; E eu pretende dormir aos teus abraços, Cheio de amor, vazio de esperança. Refugiado à sombra do mistério Pude cantar meu hino doloroso: E o mundo ouviu o som doce ou funéreo Sem conhecer o coração ansioso Refugiado à sombra do mistério. Mas eu que posso contra a sorte esquiva? Vejo que em teus olhares de princesa Transluz uma alma ardente e compassiva Capaz de reanimar minha incerteza Mas eu que posso contra a sorte esquiva? Como um réu indefeso e abandonado Fatalidade, curvo-me ao teu gesto; E se a perseguição me tem cansado. Embora, escutarei o teu aresto. Como um réu indefeso e abandonado, Embora fujas aos meus olhos tristes Minh'alma irá saudosa, enamorada Acercar-se de ti lá onde existes Ouvirás minha lira apaixonada, Embora fujas aos meus olhos tristes, Talvez um dia meu amor se extinga, Como fogo de Vesta mal cuidado, Que sem o zelo da Vestal não vinga; Na ausência e no silêncio condenado Talvez um dia meu amor se extinga, Então não busques reavivar a chama. Evoca apenas a lembrança casta Do fundo amor daquele que não ama Esta consolação apenas basta; Então não busques reavivar a chama. Guarda estes versos que escrevi chorando Como um alívio à minha soledade, Como um dever do meu amor; e quando Houver em ti um eco de saudade Beija estes versos que escrevi chorando. VI Em vão! Contrário a amor é nada o esforço humano; É nada o vasto espaço, é nada o vasto oceano. Solta do chão abrindo as asas luminosas Minh'alma se ergue e voa às regiões venturosas, Onde ao teu brando olhar, ó formosa Corina? Reveste a natureza a púrpura divina! Lá, como quando volta a primavera em flor, Tudo sorri de luz tudo sorri de amor; Ao influxo celeste e doce da beleza, Pulsa, canta, irradia e vive a natureza; Mais languida e mais bala, a tarde pensativa Desce do monte ao vale: e a viração lasciva Vai despertar à noite a melodia estranha Que falam entre si os olmos da montanha; A flor tem mais perfume e a noite mais poesia; O mar tem novos sons e mais viva ardentia; A onda enamorada arfa e beija as areias, Novo sangue circula, ó terra, em tuas veias! O esplendor da beleza é raio criador: Derrama a tudo a luz, derrama a tudo o amor. Mas vê. Se o que te cerca é uma festa de vida Eu, tão longe de ti, sinto a dor mal sofrida Da saudade que punge e do amor que lacera E palpita e soluça e sangra e desespera. Sinto em torno de mim a muda natureza Respirando, como eu, a saudade e a tristeza E deste ermo que eu vou, alma desventurada, Murmurar junto a ti a estrofe imaculada Do amor que não perdeu, com a última esperança. Nem o intenso fervor, nem a intensa lembrança. Sabes se te eu amei, sabes se te amo ainda, Do meu sombrio céu alma estrela bem-vinda! Como divaga a abelha inquieta e sequiosa Do cálice do lírio ao cálice da rosa, Divaguei de alma em alma em busca deste amor; Gota de mel divino, era divina a flor Que o devia conter. Eras tu. No delírio De te amar— olvidei as lutas e o martírio; Eras tu. Eu só quis, numa ventura calma, Sentir e ver o amor através de uma alma; De outras belezas vãs não valeu o esplendor, A beleza eras tu: — tinhas a alma e o amor. Pelicano do amor dilacerei meu peito, E com meu próprio sangue os filhos meus aleito; Meus filhos: o desejo, a quimera, a esperança; Por eles reparti minh'alma. Na provança Ele não fraqueou, antes surgiu mais forte; É que eu pus neste amor, neste último transporte, Tudo o que vivifica a minha juventude: O culto da verdade e o culto da virtude, A vênia do passado e a ambição do futuro, O que há de grande e belo, o que há de nobre e puro. Deste profundo amor, doce e amada Corina, Acorda-te a lembrança um eco de aflição? Minh'alma pena e chora à dor que a desatina: Sente tua alma acaso a mesma comoção? Em vão! Contrário a amor é nada o esforço humano, É nada o vasto espaço, é nada o vasto oceano! Vou, sequioso espírito, Cobrando novo alento N'asa veloz do vento Correr de mar em mar; Posso, fugindo ao cárcere, Que à terra me tem preso, Em novo ardor aceso, Voar, voar, voar! Então, se à hora lânguida Da tarde que declina Do arbusto da colina Beijando a folha e a flor A brisa melancólica Levar-te entre perfumes Uns tímidos queixumes Ecos de mágoa e dor; Então, se o arroio tímido Que passa e que murmura À sombra da espessura Dos verdes salgueirais, Mandar-te entre os murmúrios Que solta nos seus giros, Uns como que suspiros De amor, uns ternos ais; Então, se no silêncio Da noite adormecida Sentires—mal dormida Em sonho ou em visão, Um beijo em tuas pálpebras, Um nome aos teus ouvidos E ao som de uns ais partidos Pulsar teu coração. Da mágoa que consome O meu amor venceu Não tremas: — é teu nome, Não fujas— que sou eu!