Por Euclides da Cunha (1907)
Daí, em grande parte, os desfalecimentos da nossa atividade e do nosso espírito. O verdadeiro Brasil nos aterra; trocamo-lo de bom grado pela civilização mirrada que nos acotovela na rua do Ouvidor; sabemos dos sertões pouco mais além da sua etimologia rebarbativa, desertus; e, a exemplo dos cartógrafos medievos, ao idealizarem a África portentosa, podíamos escrever em alguns trechos dos nossos mapas a nossa ignorância e o nosso espanto: hic abent liones...
Não admiram o incolor, o inexpressivo, o incaracterístico, o tolhiço e o inviável na nossa arte e das nossas iniciativas: falta-lhes a seiva materna. As nossas mesmas descrições naturais recordam artísticos decalques, em que o alpestre da Suíça se mistura, baralhado, ao distendido das landes: nada do arremessado impressionador dos itambés a prumo, do áspero rebrilhante dos cerros de quartzito, do desordenado estonteador das matas, do dilúvio tranqüilo e largamente esparso dos enormes rios, ou do misterioso quase bíblico das chapadas amplas... É que a nossa história natural ainda balbucia em seis ou sete línguas estrangeiras, e a nossa geografia física é um livro inédito.
Aí está para o demonstrar esta questão gravíssima das secas. Nenhuma outra reclama mais imperativamente conhecimentos positivos acerca da estrutura dos terrenos.
Entre os recursos sugeridos, que se não excluem e cuja simultaneidade é indispensável a uma solução definitiva, aponta-se, preeminente, a açudada em vasta escala.
As mais ligeiras noções climatológicas denotam-lhe o valor: os numerosos e minúsculos lagos largamente espalhados na região terão o efeito moderador de um mediterrâneo subdividido; desaparecerão as colunas ascencionais dos ares adustos, que por ali repulsam vivamente os alísios, e com eles a umidade recolhida nos mares; as irrigações fecundarão a terra e, a breve trecho, despertas as suas energias adormecidas, a renascença da flora ultimará a intervenção humana. Mas este meio, tão decisivo pelos efeitos prefigurados, será ilusório sem a preliminar de investigações complexas, desdobrando-se dos simples trabalhos de nivelamento, aos exames relativos à permeabilidade ou inclinação dos extratos, até aos estudos mais sérios e delicados da fisiologia vegetal. Porque mesmo na passividade inorgânica dos fatos naturais se entrelaçam solidários. Vai para meio século que Elie de Beaumont o demonstrou, num dos lances de sua intuição genial. É uma aliança indestrutível em que os incidentes mais díspares se acolchetam, e os vários aspectos naturais se desenrolam numa seqüência impecável, lembrando um enredo firme de onde ressaltam as grandes vicissitudes e, diríamos melhor, o drama comovedor da existência indefinida da terra. Jamais o apreenderemos no afogadilho das empreitadas científicas, de todo inaptas a nos facilitarem, numa síntese final, a imagem aproximada desses misteriosos passados geológicos, que tanto esclarecem, às vezes, a nossa situação presente.
Ainda hoje quem contempla, na plenitude do estio, a natureza estranha do norte, sobretudo nos trechos em que se desatam as chapadas intermitentemente cindidas de serros aspérrimos e abruptos — não sabe bem se está sobre o chão recém-emergido de algum mar terciário, ou se pisa um velhíssimo afloramento do globo, brutalmente trabalhado pelos elementos; se tudo aquilo é a desordem de um cenário em preparativos para novas maravilhas da criação, ou um país que está morrendo; uma construção prodigiosa, em começo, ou o desabar de uma ruinaria imensa...
A drenagem de águas selvagens, que por ali se exercita nas quadras tempestuosas, os seus rios que quando transitoriamente cheios volvem as águas num ímpeto de torrentes colossais, tão céleres que mesmo quando eles cansam, no falar dos matutos, prestes a secarem, não dão vau; e o desmantelo das encostas e os pendores arruinados; e aqueles singulares boqueirões, tão lucidamente vistos por I. Joffili, que as águas rasgaram nas montanhas — tudo isto denuncia a segunda hipótese. E para logo nos empolga a imagem retrospectiva de uma terra admirável e farta e feracíssima — um vastíssimo jardim à margem dos grandes lagos — nos velhíssimos tempos fora da órbita da nossa história, antes que estourassem os seus diques de montanhas e a natureza viesse lentamente definhando — roída pelas torrentes e calcinada pelos sóis, até ao melancólico aspecto que hoje patenteia...
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.