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#Contos#Literatura Brasileira

Não é mel para a boca do asno

Por Machado de Assis (1868)

Hortênsia tinha um coração excelente. Apenas conheceu que era amada por Meneses, arrependeu-se das palavras que dissera, aparentemente palavras de remoque. Quis reparar o mal redobrando de atenções com o moço; mas de que valiam elas, quando Meneses surpreendia de quando em quando os belos olhos de Hortênsia pousarem um amoroso olhar em Marques, que andava e falava radiante e ruidoso, como um homem que não tem uma só coisa que exprobrar à fortuna?

III

Uma noite Marques anunciou em casa de Azevedo que Meneses estava doente, e por isso não ia lá.

O velho Azevedo e Hortênsia sentiram a doença do moço. Luizinha recebeu a notícia com indiferença.

Indagaram da doença; mas o próprio Marques não sabia o que era.

A doença era uma febre que cedeu no fim de quinze dias à ação da medicina. No fim de vinte dias Meneses apresentou-se em casa de Azevedo, ainda pálido e magro. Hortênsia doeu-se de o ver assim. Compreendeu que aquele amor não correspondido entrava por muito na doença de Meneses. Sem que lhe coubesse culpa por isso, Hortênsia teve remorsos de lho ter inspirado.

Era o mesmo que se a flor tivesse culpa do perfume que exala, ou a estrela do fulgor que despede de si.

Nessa mesma noite Marques disse a Hortênsia que ia pedi-la em casamento no dia seguinte.

— Autoriza-me? perguntou ele.

— Com uma condição.

— Qual?

— É que o fará secretamente, e que nada divulgará até o dia do casamento, que deve ser daqui a alguns meses.

— Por que esta condição?

— Já me nega o direito de fazer uma condição?

Marques calou-se, sem compreender.

Era fácil, entretanto, entrar no pensamento íntimo de Hortênsia.

A moça não queria com a publicidade imediata do casamento amargurar fatalmente a existência de Meneses.

Contava ela que, pouco depois do pedido e do ajuste, alcançaria licença do pai para ir passar fora dois ou três meses.

— É quanto basta, pensava ela, para que o outro me esqueça e não sofra. Esta delicadeza de sentimento, que revelava em Hortênsia uma rara elevação de espírito e uma alma perfeita, se Marques pudesse compreendê-la e adivinhá-la, talvez condenasse a moça.

Entretanto, Hortênsia obrava de boa-fé. Queria ser feliz, mas teria remorsos se, para sê lo, houvesse de fazer padecer alguém.

Marques, conforme a promessa, foi no dia seguinte à casa de Azevedo, e na forma

tradicional pediu a mão de Hortênsia.

O pai da moça não tinha objeção alguma; e apenas, pro forma, impôs a condição da aquiescência da filha, que não tardou em dá-la.

Resolveu-se que o casamento seria dali a seis meses; e logo daí a dois dias Hortênsia pediu ao pai para ir visitar o tio, que residia em Valença.

Azevedo consentiu.

Marques, apenas recebeu a resposta afirmativa de Azevedo em relação ao casamento, repetiu a declaração de que até o dia aprazado o casamento seria um inviolável segredo. — Mas, pensou ele consigo, para Meneses eu não tenho segredos, e este devo dizer-lho, sob pena de mostrar-me mau amigo.

O moço estava ansioso por comunicar a alguém a sua felicidade. Foi dali para a casa em que Meneses advogava.

— Grande notícia, disse ele ao entrar.

— O que é?

— Vou casar-me.

— Com a Hortênsia?

— Com a Hortênsia.

Meneses empalideceu, e sentiu que o coração batia-lhe com força. Ele esperava por aquilo mesmo; mas ouvir a declaração do fato, naturalmente próximo; adquirir a certeza de que a amada de seu coração já era de outro, não só pelo amor, como pelos laços de uma próxima e assentada aliança, era uma tortura a que ele não podia fugir nem dissimular.

A sua comoção foi tão visível, que Marques perguntou-lhe:

— Que tens?

— Nada; restos daquela moléstia. Ando muito doente. Não é nada. Então, vais casar-te? Dou-te os meus parabéns.

— Obrigado, meu amigo.

— Quando é o casamento?

— Daqui a seis meses.

— Tão tarde!

— É vontade dela. Seja como for, é coisa assentada. Ora, não sei que sinto com isto; é uma impressão nova. Custa-me a crer que eu vá casar deveras...

— Por quê?

— Eu sei lá! Também, se não fosse ela, não casava. É bonita a minha noiva, não?

— É.

— E ama-me!... Queres ver a última carta dela?

Meneses dispensava bem a leitura da carta; mas como?

Marques tirou a carta do bolso e começou a lê-la; Meneses fazia esforços para não prestar atenção ao que ouvia.

Mas era debalde.

Ouvia tudo; e cada uma daquelas palavras, cada um daqueles protestos era uma punhalada que o pobre moço recebia no coração.

Quando Marques saiu, Meneses retirou-se para casa, aturdido como se o houvessem deitado ao fundo de um grande abismo, ou como se acabasse de ouvir a sua sentença de morte.

Amava perdidamente a uma mulher que o não amava, que amava a outro e que ia casar. O fato é comum; os que o tiverem conhecido por experiência própria avaliarão a dor do pobre moço.

(continua...)

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