Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Deus legou aos homens pensamentos grandes, importantes e sagrados, em sua passagem, de padecimentos para ele e de salvação para nós; em sua passagem por este mundo, dizemos, cada passo que deu, cada ação que fez, cada palavra que pronunciou, foi uma lição de virtude angélica, uma amostra do caminho do céu, um pensamento de santidade; e o cumprimento de cada um desses pensamentos é o emblema, o mote de cada classe da sociedade; entre eles, se fosse possível dar-se mais beleza a uma do que a outras idéias do Espírito Divino, seria um dos mais sublimes e difíceis – a caridade. – E os missionários dessa virtude angélica, são especialmente os médicos. A medicina é o sacerdócio da caridade.
O negociante de receitas, aquele que, mercê de seu título, anda por aí curando, se pode, os seus doentes, tendo em mira somente o pobre interesse; que só presta o seu conselho a troco de ouro; que morde nos outros médicos, como em concorrentes que lhe diminuem o ganho; esse, que não compreende o gemer da alma da humanidade; que não sabe o que é o sofrimento mal gemido, as angústias abafadas do homem pobre; esse, que enquanto receita com a mão direita, tem já a esquerda estendida para receber dinheiro; esse, que define a medicina – somente um meio de vida; – esse, que não entende que a religião de Jesus Cristo, a nobreza de sua ciência, e a honra do coração marcam-lhe o posto ao pé de quem geme, e não unicamente ao pé de quem paga; esse... é apenas um mercador de receitas.
Mas aquele que, no exercício da medicina, não faz distinção entre rico e pobre, e só vê indivíduos que de seus cuidados carecem; aquele que combate as enfermidades, disputando contra a morte dia por dia, hora por hora, instante por instante, o campo da vida; que invade corajoso a atmosfera da peste; que se expõe com marcial bravura ao contágio mortífero, respirando aqui ar miasmático e envenenado, banhando-se ali em suor fétido e peçonhento, para caridoso levar socorros a infelizes, de quem sabe não receberá um ceitil; aquele que nem mesmo desanima, nesse viver trabalhoso, ante o monstro que tantas mil vezes fere o coração do médico – a ingratidão; – que paciente se amolda à impertinência da infância, ao capricho da velhice e ao pudor da virgindade; que não conhece no homem só os padecimentos da matéria; que entende e fala também o idioma da sensibilidade, o eloqüente dizer da alma; aquele que tem na cabeça a medicina para curar, nas mãos metade do ouro que recebeu do rico para espalhar sobre a miséria da pobreza; nos lábios consolações salutíferas para com elas abrandar os tormentos do infeliz; e no coração uma sepultura para eternamente encerrar os segredos das famílias; esse sim... esse é médico.
E se acaso se orgulha de sê-lo, tem, de sobra, razão para orgulhar-se.
Nobre, alta, importante, solene missão é essa!... e essa missão tinha sido cumprida à risca pelo dr. Paulo Ângelo.
A vida de Paulo Ângelo fora uma longa história de filantropia e caridade: compreendendo perfeitamente o ministério do médico, não se arredara nunca em nenhum de seus passos da linha de proceder que lhe cumpria seguir. Dias e noites gastara ele em fazer bem ou em preparar-se para fazê-lo a seus semelhantes, porque de dia eram suas horas votadas à observação e ao cuidado de seus enfermos; e de noite estudava, estudava sempre, pois que jamais pensava ser suficientemente sábio. Havia reconhecido que, assim como o homem moral, o homem físico é também um livro imenso, em que sempre se acham segredos novos para interpretar; e que lendo-se mesmo de contínuo até à última hora da vida, ainda assim não se tem lido bastante, ou antes nunca se chega à sua página derradeira.
Moço ainda, desposara ele uma mulher virtuosa e amável; e o céu abençoando sua união lhe fez presente de uma filha, que deveria fazer o encanto de sua velhice. Ocupou-se desvelado em sua educação: possível e muito, lhe fora preparar-lhe uma herança elevada porque, médico hábil e afamado, exercia uma clínica vasta e rendosa; quase sempre, porém, metade do estipêndio do rico ficava debaixo do travesseiro do pobre.
No entanto, se seus cofres permaneciam vazios, as bênçãos do povo choviam sobre Paulo Ângelo e sua família, pois que sua esposa, obedecendo à própria índole, e seguindo os exemplos que ele lhe dava, cumpria também a santa virtude da caridade, com essa graça no bem-fazer, com esse segredo de ser beneficente quase brincando, de que somente são capazes as mulheres; e sua pequena filha amamentada com o leite da virtude, embalada no berço da beneficência, era um galante querubim, de quem Deus modelara o coração, e o amor o rosto.
Ia indo Paulo Ângelo em seu viver sossegado e ditoso, quando no começo do ano de 1844 foi vítima de seu próprio ministério: contraindo uma enfermidade contagiosa, trouxe o germe da morte para o centro de sua família, e em um mesmo dia os sinos da capital gemeram com seu dobre lúgubre por ele e por sua esposa.
Era um espetáculo bem triste ver famílias inteiras, de quem ele havia sido o benfeitor, acompanhar chorando seu carro fúnebre!... era uma cena despedaçadora vê-las ao derredor de seu féretro misturando lamentos e soluços com os hinos funerais dos sacerdotes.
E havia, com tudo isso, um objeto ainda mais triste, ainda mais lamentável do que todo esse espetáculo: havia uma órfã de quatorze anos.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.