Por Machado de Assis (1867)
Era a estátua do sofrimento animada, via-se que uma dor latente mas devoradora consumia aquela existência malfadada. Um traço azul, mas levemente acinzado, circulava os belos olhos que, se ainda conservavam algum fogo, era o fogo de uma febre contínua. Tinha emagrecido. Ainda assim era poética, de outra poesia, é certo, que não a poesia virginal dos primeiros anos, poética daquela poesia que influi e domina os espíritos superiores.
Daniel recuou um passo diante da mulher transformada que lhe aparecia. Depois, o movimento natural foi abrir-lhe os braços.
Francisca hesitou; depois cedendo a uma força interior abraçou Daniel. Breve amplexo a que a moça se esquivou com um esforço.
Depois convidou Daniel a sentar-se. Indagou da saúde e do resultado dos seus trabalhos. Quando Daniel contou-lhe tudo o que sofrera para chegar a conseguir alguma coisa e colocar-se na situação de aspirar-lhe à mão, Francisca levou o lenço aos olhos e enxugou duas lágrimas, duas apenas, mas ardentes como lavas.
— Mas enfim... disse Daniel.
Francisca interrompeu-o:
— Daniel, o nosso casamento é impossível.
— Impossível!
— Eu estou casada!
— Casada!...
— É verdade...
Seguiram-se longos minutos de silêncio. Francisca tinha os olhos baixos; Daniel olhava fixamente para a moça a ver se tinha diante de si um monstro ou uma vítima. Depois, levantou-se e tomando o chapéu, disse:
— Adeus!
A moça levantou os olhos para Daniel e disse-lhe timidamente:
— Sem uma explicação?
— Que explicação?
— Oh! não me acuse! fui violentada. Meu pai desejou casar-me apenas apareceu um bom partido. Chorei, roguei, implorei. Tudo foi em vão. Fez-me casar. Oh! se soubesse como tenho sofrido!
Daniel olhou de novo para Francisca, perscrutando se era verdade o que ela dizia ou fingimento.
Francisca era sincera.
A moça continuou:
— Casei-me: meu marido era bom; mas eu não o amava; hoje mal o estimo; e ainda assim é por mim. Vendo que eu não correspondia com um amor igual ao seu tornou-se frio e reservado. Mas nem isso reparo; procurei esquecer o amor impossível que eu trazia comigo e não pude. Não me vê magra? Acredita que o esteja por efeito de arte? Daniel sentou-se de novo e tapou o rosto com as mãos.
O primeiro movimento da moça foi arrancar-lhe as mãos do rosto e animá-lo com uma palavra de afeição. Mas a idéia do dever apresentou-se-lhe ao espírito; Francisca pôde conter-se. Era já muito o que dissera. A moça amara ardentemente Daniel; agora mesmo ela sentia que se lhe abriam no coração, com o frescor primitivo, as flores cândidas do antigo amor. Mas Francisca podia sofrer no interior; não era escrava das paixões ao ponto de esquecer as leis do dever. Ora, o dever fazia de Daniel naquele momento um homem estranho.
Daniel levantou-se.
— Adeus! disse ele.
— Adeus! murmurou a moça.
E Daniel com passo lento e incerto dirigiu-se para a porta. Francisca acompanhava-o com um último olhar, comprimindo o coração. Sentiu-se o rumor de passos de quem subia a escada.
— É meu marido, disse Francisca levantando-se.
— Direi que sou um amigo de seu pai que estava fora e que vim visitá-la. Abriu-se a porta e César entrou.
— Oh! já cá estás! disse César a Daniel.
Daniel estava surpreso; começava a adquirir sangue frio para engendrar a resposta ao marido de Francisca, que supunha não conhecer, e em vez de um estranho, aparece-lhe o velho amigo em quem ele nunca pensara para marido de Francisca. César continuou:
— Está bom; não precisa ir já embora. Senta-te, descansa...
— Tinha que fazer...
— Deixa-te disso.
E tomando o chapéu a Daniel fê-lo sentar de novo.
— Conhecias minha mulher?
— Conhecia, disse Daniel depois de hesitar e consultando o olhar de Francisca. Esta acrescentou:
— O sr. Daniel ia lá em casa de meu pai,
— Conhecias um anjo, disse César.
Daniel não respondeu.
Francisca sorria tristemente. —
Pois meu caro Daniel, acrescentou César, é aqui a nossa casa. Olha que eu falo assim com todo o coração. Digo nossa porque espero que a antiga amizade subsistirá como antes. Ah! sabes, meu amor, disse César voltando-se para Francisca, sabes que Daniel foi a Minas buscar o meio de...
— É segredo, interrompeu Daniel que receava as palavras de César pelo que elas poderiam produzir em Francisca.
— É segredo?
— É.
— Ah! então... Mas, enfim, o que eu posso dizer é que procedeste como um herói. Ah! meu poeta, eu devia contar com isto; sempre tiveste queda para as idéias generosas e os lances elevados. Deus te faça feliz!
(continua...)
ASSIS, Machado de. Francisca. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.