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#Sermões#Retórica

Sermão da Glória de Maria, Mãe de Deus

Por Padre Antônio Vieira (1644)

36. Isto que disse Sêneca, falando dos benefícios, corre igualmente, e muito mais em todas as outras ações ou grandezas, em que os pais se vêem vencidos dos filhos. Ouçamos a outro filósofo que melhor ainda que Sêneca conheceu os afetos naturais, e não só em mais harmonioso estilo, mas com mais profunda especulação que todos, penetrou a anatomia do coração humano. Faz paralelo Ovídio entre os dois primeiros Césares, Júlio e Augusto, e aquele pai, e este filho, e depois de assentar que a maior obra de Júlio César foi ter um tal filho como Augusto: Nec enim de Caesaris actis ullum majus opus, quam quod pater extitit hujus – supõe, com a comum opinião de Roma, que um cometa, que na morte de Júlio César apareceu, era a alma do mesmo Júlio colocada entre os deuses, como um deles. E no meio daquela imaginada bemaventurança, qual vos parece que seria a maior glória de um homem, que nesta vida tinha logrado todas as que pode dar o mundo? Diz o mesmo Ovídio – tão falso na suposição como poeta, mas tão certo no discurso como filósofo – que o que fazia lá de cima Júlio César era olhar para seu filho Augusto, e que, considerando as grandezas do mesmo filho, e reconhecendo e confessando que eram maiores que as suas, o seu maior gosto e a sua maior glória era ver-se vencido dele: Natique videns benefacta, fatetur esse suis majora, et vinci gaudet ab illo. Ah! Virgem gloriosíssima; no céu estais verdadeiramente, como crê e adora a nossa fé; mas nas sombras escuras e falsas deste fabuloso pensamento, que consideração haverá, que não reconheça quais são lá os mais intensos afetos e as maiores glórias do vosso? Estais vendo e contemplando, como em um espelho claríssimo, o infinito ser, os infinitos atributos, a infinita e imensa majestade de vosso unigênito Filho; conheceis e confessais que as suas grandezas excedem e são também infinitamente maiores que as vossas: Fatetur esse suis majora; mas a mesma evidência de que vosso Filho vos vence e excede na glória é a melhor parte da mesma glória vossa, e a de que mais vós gozais e gozareis eternamente com ele: Et vinci gaudet ab illo. Quem pudera imaginar que Júlio César, vencedor de Cipião e de Pompeu, e de tantos outros capitães famosos, que junto a estes perdem o nome, triunfador da África, do Egito, das Gálias e das Espanhas, e da mesma Roma, aquele enfim de tão altivo coração, que ninguém sofreu lhe fosse superior ou igual no mundo, quem pudera imaginar, digo, que havia de gostar e gloriar-se de ser vencido de outro? Mas como Augusto, que o vencia, era filho seu, o ser vencido dele era a sua maior vitória, este o maior triunfo de seus triunfos, esta a maior glória de suas glórias: Et vinci gaudet ob illo.

37. Mas por que neste exemplo não nos fique o escrúpulo de ser adulação poética, posto que tão conforme ao afeto natural, confirmemo-lo com testemunho histórico e verdadeiro, em nada menor que o passado, e porventura mais notável. Celebra Plutarco, tão insigne historiador como filósofo, o grande extremo com que Filipe, rei de Macedônia, amava a seu filho Alexandre, já digno do nome de Grande em seus primeiros anos, pela índole e generosidade real que em todos seus pensamentos, ditos e ações resplandecia.4 E para prova deste extremado afeto, refere uma experiência, que nos vassalos pudera ser tão arriscada, como do rei mal recebida, se o amor de pai a filho a não interpretara doutra sorte. Foi o caso que os macedônios, sem embargo da fé que deviam a Filipe, publicamente chamavam a Alexandre o rei, e Filipe o capitão. Mas como castigaria Filipe este agravo? Não há ciúmes mais impacientes, mais precipitados e mais vingativos que os que tocam no cetro e na coroa. Apenas tem havido púrpura antiga, nem moderna, que por leves suspeitas neste gênero, se não tingisse em sangue. E que sofre Filipe, aquele que tanto tinha dilatado o império de Macedônia, que seus próprios vassalos em sua vida e em sua presença, lhe tirem o nome de rei, e o dêem a Alexandre? Muito fora que o sofresse, mas muito mais foi que não só o sofria, senão que o estimava e se gloriava muito disso. Ouvi a Plutarco: Hunc filium non immerito Philippus dilexit, ut etiam gauderet, cum Alexandrum Macedones regem, Philippum appellarent ducem. Era Filipe pai, e Alexandre filho, e tão fora estava o pai de sentir que lhe antepusessem o filho, que antes o tinha por lisonja e glória, e esse era o seu maior gosto: Ut etiam gauderet. Quando lhe tiravam a coroa para a darem a seu filho, então se tinha Filipe por mais coroado; quando já faziam Alexandre herdeiro do reino, antes de lhe esperarem pela morte, então se tinha por imortal; quando o apelidavam com menor nome, então se tinha por maior; e quando lhe diziam que ele só era capitão, então aceitava esta gloriosa injúria, como os vivas e aplausos da mais ilustre vitória, porque a maior glória de um pai é ser vencido de seu filho: Et vinci gaudet ab illo.

(continua...)

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