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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Ângela

Por Gregório de Matos (1696)

Morreste, Ninfa bela,
na florescente idade:
nasceste para flor,
como flor acabaste.
Viu-te a Alva no berço,
a Véspora no jaspe,
mimo foste da Aurora,
a lástima da tarde.
O nácar, e os alvores
da tua mocidade
foram, se não mantilhas,
mortalha a teus donaires.
Oh nunca flor nasceras,
Se imitando-as tão frágil,
no âmbar de tuas folhas
te ungiste, e te enterraste.
Morreste, e logo Amor
quebrou arco, e carcases;
que muito se lhe faltas,
que logo se desarme?
Ninguém há neste monte,
ninguém naquele vale,
o cortesão discreto,
o pastor ignorante:
Que teu fim não lamente,
dando aos quietos ares
já fúnebres endechas,
já trágicos romances.
O eco, que responde
a qualquer voz do vale,
já agora só repete
meus suspiros constantes.
A árvore mais forte,
que gemia aos combates
do vento, que a meneia
ou do raio, que a parte,
Hoje geme, hoje chora
com lamento mais grave
forças da tua estrela
mais que a força dos ares.
Os Ciprestes já negam
às aves hospedagem,
porque gemendo tristes,
andarn voando graves.
Tudo enfim se trocou,
montes, penhas, e vales,
o penedo insensível,
o tronco vegetável.
Só eu constante, e firme
choro o teu duro transe,
o mesmo triste sernpre
por toda a eternidade.
Ó alma generosa,
a quem o Céu triunfante
usurpou a meus olhos
para ser lá deidade.
Aqui onde o Caípe
já te erigiu altares
por Deusa destes montes,
e por flor destes vales:
Agrário o teu Pastor
não te forma de jaspes
sepulcro a tuas cinzas
túmulo a teu cadáver.
Mas em lágrimas tristes,
e suspiros constantes
de um mar tira dois rios,
de um rio faz dois mares.

LIZONGEA OS SENTIMENTOS DE DONA VICTORIA COM ESTE SONETO FEYTO EM SEU NOME.

Alma ditosa, que na empírea corte
Pisando estrelas vais de sol vestida,
Alegres com te ver fomos na vida,
Tristes com te perder somos na morte.

Rosa encarnada, que por dura sorte
Sem tempo do rosal foste colhida,
Inda que melhoraste na partida,
Não sofre, quem te amou, pena tão forte.

Não sei, como tão cedo te partiste
Da triste Mãe, que tanto contentaste,
Pois partindo-te, a alma me partiste.

Oh que cruel comigo te mostraste!
Pois quando a maior glória te subiste,
Então na maior pena me deixaste.

LIZONGEA O SENTIMENTO DE FRANCISCO MONIZ DE SOUZA SEU IRMÃO FAZENDO EM SEU NOME ESTE SONETO.

Flor em botão nascida, e já cortada,
Tiranamente murcha em flor nascida,
Que nos primeiros átomos da vida,
Quando apenas sois nada, não sois nada.

Quem vos despiu a púrpura corada?
Como assim da beleza estais despida?
Mas ah Parca cruel! Morte atrevida!
Por que cortaste a flor mais engraçada?

Porém que importa, bem que me desvela
Na flor o golpe, se maior ventura
Vos prometo no Céu, bela Teresa.

De flor ao Céu passais a ser estrela,
E não perde de flor a formosura,
Quem no Céu melhor flor logra a beleza.

PERTENDE O POETA CONSOLAR O EXCESSIVO SENTIMENTO DE VASCO DE SOUZA COM ESTE SONETO

Sôbolos rios, sôbolas torrentes
De Babilônia o Povo ali oprimido
Cantava ausente, triste, e afligido
Memórias de Sião, que tem presentes.

Sôbolas do Caípe águas correntes
Um peito melancólico, e sentido
Um anjo chora em cinzas reduzido,
Que são bens reputados sobre ausentes.

Para que é mais idade, ou mais um ano,
Em quem por privilégio, e natureza
Nasceu flor, a quem um sol faz tanto dano?

Vossa prudência pois em tal dureza
Não sinta a dor, e tome o desengano
Que um dia é eternidade da beleza.

A VISTA DO EXCESSO DE VASCO DE SOUZA PONDERA O POETA, QUE O VERDADEYRO AMOR, AINDA TIRADA A CAUSA NÃO CESSA NOS EFFEYTOS, CONTRA A REGRA DE ARISTOTELES.

Errada a conclusão hoje conheça
O Mestre, que mais douto na ciência
Nos deixou em prolóquio sem falência,
Que em a causa cessando, o efeito cessa.

Porque a dor de um Magoado nos confessa,
Que arrastou a Beleza com violência,
Que o que efeito causara uma assistência,
Apartado da causa então começa:

Apartada a Beleza inda lhe causa
Um efeito tão forte, que suspeito,
Que não tem inda a causa feito pausa.

Porque já em domínios de seu peito,
Se na vida a rendia como causa,
Hoje o vence na morte pelo efeito.

LINZONGEA FINALMENTE O POETA COM ESTAS MORALIDADES TRISTES DE HUMA VIDA FLORECENTE PELAS FRIAS VOCES DAQUELLA SEPULTADA BELLEZA SUA FORMOSAS IRMÃAS, AVIVANDOLHE OS MOTIVOS DA DOR.

MOTE

Ya que flor, mis Flores, fui
Vuestro exemplo aora soy,
pues de flor a sol subi,
y oy de mi aun sombras doy.

1
En flor, mis Flores, se muere,
quien en la vida fué flor,
que es la muerte com rigor
de las Flores Malmequiere:
quien de vosotras se huviere
desconocido haste aqui,
su triste flor veya en mi
como en un puro cristal,
que espejo soy de su mal,
ya que flor, mis Flores, fui.

2
Triunfar, Flores, en effecto
ya me visteis de la suerte,
si mal me quiso la muerte,
siempre he sido Amor perfecto:
desengañada os prometto
de la ceniza, en que estoy,
pues al sepulchro me voy,
Flores, para que nasci,
que si Perpetua no fui,
Vuestro exemplo aora soy.

3
de aqueste jardin de Flora,
que flagra oloroso aliento,
ya fui gallardo elemento,
ya fui bellissima aurora:
pero, mis Flores, aora
nada soy, de lo que fui,
bien que los habitos di,
con que a los astros llegué,
y en el cielo me quedé,
Pues de flor e sol subi.

(continua...)

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