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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Bárbora ou Babu

Por Gregório de Matos (1693)

2
Ou tu imitas meu ser,
ou eu tua natureza,
pois na luz de uma beleza,
ando ardendo por arder:
se à luz, que vejo acender,
te arrojas tão cega, e tal
que imitas ao natural,
com que arder por ti me vês,
me obrigas a dizer, que és
Imitação do meu mal.

3
És, Barboleta, comua,
pois a toda luz te botas,
e eu cego, se bem o notas,
sou só, Barboleta, tua:
qualquer segue a estrela sua,
mas tu melhor te socorres,
quando em fogo algum te torres,
porque eu nunca ao fogo chego,
e tu logras tal sossego,
Que em chegando ao fogo morres.

4
Tu mais feliz, ao que entendo,
inda que percas a vida,
porque a dá por bem perdida,
quem vive de andar morrendo:
eu não morro, e o pertendo,
porque falta a meu pesar
a fortuna de acabar:
tu morres, e tu sossegas,
e vais morta, quando cegas,
Porque morres por chegar.

AMOROSA HYPOCREZIA DE CONFORMIDADE EM PENAS.

Deus vos dê vida, Babu,
para tirar-me, a que tenho,
que segundo usais comigo,
eu vos não sinto outro jeito.

Todo o bairro sente o dano,
que ides ao bairro fazendo,
só eu não sinto o meu mal,
mas antes vo-lo agradeço.

Porque se a vossa beleza
é causa do meu tormento,
como hei de sentir meu mal,
se é tão forçoso, e tão belo.

Matai-me, embora, contanto
que saibam, que estou morrendo,
Babu, de vossa beleza,
porque entendam, que o mereço.

Quem perder por vós a vida,
e com tal merecimento,
que chegue a morrer por vós,
que mais quer, que merecê-lo?

É verdade, que lastimo,
aos que assim me vêem morrendo,
que a glória do padecer
não pode entendê-la um néscio.

Lástima os néscios me têm,
e poderão ter-me os néscios
de ver-me morrer inveja,
mais de que ver-me vivendo.

Viver, não pode, quem ama,
e eu olvidar-vos não quero,
se hei de morrer, quando amo,
e viver, quando aborreço.

Morra embora de adorar-vos,
que este é formoso tormento,
esta a suave agonia,
este o pesar lisonjeiro.

Dai-me licença, que escolha,
nestes dois contrários meios
antes morrer por amar-vos,
que viver de aborrecer-vos.

DE HUMA QUEDA QUE DEO O POETA EM CASA DESTA BARBORA, ERGUE NOVOS
CONCEYTOS À SUA ROGATIVA.

Fui, Babu, à vossa casa
e indo com sentido em mim,
do sentido combatido
vim finalmente a cair.

Com cair a vossos pés
nenhum resguardo senti,
porque eram vossos sapatos
poucos para me cobrir.

Fui reverente a beijá-los,
e querendo-o conseguir
sobrou boca, e faltou pé,
e assim os beijos perdi.

Que com pé tão pequenino
tão abreviado, e sutil
uma boca desmedida
faz maridagem ruim.

Ergui-me por melhorar,
e então menos consegui,
que se os pés por si me fogem,
vós cos braços me fugis.

Fiquei muito envergonhado,
e em caso tão infeliz
envergonhei-me de ver-vos,
porém não me arrependi.

Mas se o meu sangue, e meus rogos,
vos não podem persuadir,
verta-se o sangue em dilúvios,
e os rogos em frenesi.

Não se quis o meu rogado,
pois no instante, em que vos vi,
se inclinou meu sangue ao vosso,
e rebentou por se unir.

Para queimardes-me o sangue,
me matar, e me afligir
rogos não são necessários,
para admitir-me isso sim.

E tão bom dia, que bastem
para um amor se admitir,
pois rogar, a quem não ama,
é tão mau, como pedir.

Por isso nunca vos peço,
que não sois vós a Beatriz,
que me hei de fazer ditoso
com vossa graga a ceitis.

Pois por dar-vos desenganos
vós, como os dou a mim,
sabei, que hei de sempre amar-vos
uma vez, que bem vos vi.

Pois esse rosto de neve,
esses dedos de jesmim,
esse Maio florescente
de boca, que bota Abris,

Me estão sempre aconselhando,
que vos queira, pois vos quis,
que vos sofra, pois vos amo,
vos busque, pois vos perdi.

AO MESMO ASSUMPTO.

1
Babu: o ter eu caído,
nenhum susto me tem dado,
porque a vossos pés prostrado
me julgo então mais subido:
direis, que fiquei sentido:
mas sabei, que não sentira,
inda que me não subira
o cair, onde caí,
se como no chão me vi,
convosco em terra me vira.

2
Porém que isso me suceda,
por mais quedas, que inda dê,
não creio, pois vejo, que
não tenho convosco queda,
vossa crueza me veda
este bem, que entanto abraço:
quem viu semelhante passo,
que encontre meu desvario,
Babu, em vosso desvio
a minha queda embaraço?

3
Confesso, que então caído
fiz tenção de me sangrar,
mas não me quis mais picar,
porque assaz fiquei corrido:
não andei pouco advertido
(falo, como quem vos ama)
porque eu sei, formosa Darna,
que por mais que me sangrasse
livre estou, de que chegasse
a ver-me por vós na cama.

(continua...)

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