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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Mariana, apelidada a rola

Por Gregório de Matos (1696)

8
Então fiquei mais absorto,
mais sentido, e pesaroso
mais amante, e mais saudoso,
enfim então fiquei morto:
nestes versos me conforto,
pois nêles se queixa Amor:
e inda que o vosso favor
é coisa, que nunca espero,
digo ao menos, que vos quero,
e alivio a minha dor.

SENTIO-SE MARIANNA DE QUE O POETA PUBLICASSE SEU NOME SABENDO, O QUE DEVIA A THOMAZ PATRICIO, E QUE, PERSERVERASSE AINDA NA EMPREZA, AO QUE RESPONDE O POETA COM O SEGUINTE

MOTE

Se tomar minha pena em penitência
Do êrro em que caiu o pensamento
Não abranda, mas dobra meu tormento:
A isto, e a mais obriga a paciência.

GLOSA

1
Bem conheço, Senhor, que hei errado,
Em pedir-vos afeto tão rendido,
Mas bem vêdes, que andei muito acertado,
Em vos dar meu amor enternecido:
Baste a pena de não ser vosso amado,
Se punir-me quereis por atrevido,
Que mereço da culpa a indulgência,
Se tomar minha pena em penitência.

2
Quando viram meus olhos a beleza
Dêsse rosto, e os mates dessa graça,
Logo a fé de querer-vos com firmeza
Dedicar-vos pensei do amor por traça:
Se julgais por arrôjo esta fineza,
Ou dizeis, que é meu êrro por desgraça,
Emendar-me, Senhora, não intento
Do êrro em que caiu o pensamento.

3
Sim dos tempos fiar posso a ventura,
Porque o tempo domina na vontade,
Mas medicina é esta, que não cura
de uma amor excessivo a enfermidade:
Porque eu logre essa rara formosura
Quer Amor, que deixeis a crueldade,
Que o remédio do tempo, como é lento,
Não abranda, mas dobra meu tormento.

4
Nesse cravo partido por fiança
Se o remédio do tempo é aplicado,
Não duvido, que só desta esperança
Viver possa o amor mais alentado:
Abster quero já agora da esquivança
Meu amor na esperança sossegado,
Que a viver um amor em abstinência
A isto, e a mais obriga a paciência.

ADOECENDO MARIANNA GALANTEA O POETA SUA ENFERMIDADE.

ROMANCE

Enfermou Clóri, Pastôres,
por ter de humana um só es.
que também padece males,
quem logra em si tantos bens.

Clóri, digo, aquêle extremo
de formosura cruel,
que a quantos vê, tira a vida,
hoje prostrada se vê.

Triunfa agora o achaque,
o que nunca fez ninguém,
porque levar Clóri à cama,
o mal só agora fêz.

Dizem, que adoeceu Clóri,
por lhe faltar não sei quê,
eu não sei, que faltar possa,
a quem tão perfeita é.

Mover dúvidas podia
esta doença fazer,
porque haver em Clóri faltas
grande causa é de as morrer.

Nunca quis Clóri sangrar-se
nos bracos, senão nos pés,
que de puro soberana,
não dá seu braço a torcer.

Mostrou seu pé ao Barbeiro,
que com suspensão cortês,
inda que água era mui pouca,
não podia tomar pé.

Água fria pediu logo
com brevidde, porque
com a quente se podia
tanta neve derreter.

Então vadio o Barbeiro
com Clóri quis entender
que como a colheu descalça,
dizem, que a picara bem.

Desmaiou Clóri sentida,
dando bem a perceber,
que a tal sangria lhe custa
gôtas de sangue esta vez.

Com sal na bôca diverte
o desmaio, mas eu sei,
que bôca tão engraçada
nenhum sal há de mister.

Que foi supérfluo o remédio
do sal, não duvide alguém,
porque quem é luz do mundo,
sal da terra deve ser.

Logrou bem o sangrador
privilégios de Moisés,
da pedra não, mas de um jaspe
fez também sangue correr.

Agora chegai, formosas,
nestas côres aprender
o melhor branco da neve,
do coral o mais fiel.

Chegai a ver êstes mares,
onde em crescida maré
dentre a neve matizada
belos rubis colhereis.

Tôdas, as que amor lhe tinham,
parece, que ódio lhe tem
pelo muito, que desejam
chegar seu sangue a beber.

Mas todos ficam em branco,
quando vêem convalescer
a Clóri do seu desmaio,
e da doença também.

CONTINUA O POETA NA MESMA EMPREZA DE SER ADMITIDO FAZENDO GALA DO SEU MESMO DESPREZO.

MOTE

Não me queixo de ninguém,
se bem, que por vida minha
que bastante causa tinha
para queixar-me de alguém.

GLOSA

1
Queixar-me a mais não poder
e despedir o pesar:
amar, querer, e queixar
e queixar-se do querer:
eu, que isto sei entender,
e alcanço, que me está bem
não queixar-me de um desdém
por mostrar, que estimo a causa,
dando a meus alívios pausa,
Não me queixo de ninguém.

2
Se me queixo de uma dor,
abro a porta a meu tormento,
e não perco um sentimento
porquanto gostos dá Amor:
vencer a pena e melhor,
que render-se a uma dorzinha:
e quando a Parca mesquinha
da vida os fios me corte,
passarei por minha morte,
se bem, que por vida minha.

(continua...)

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