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#Ensaios#Literatura Brasileira

Plano de uma Cruzada

Por Euclides da Cunha (1907)

Além disto, para o nosso caso, trata-se de uma velha dívida a saldar.

De efeito, por um contraste impressionador, as soalheiras que requeimam o norte, são elementos benfazejos ao resto do Brasil. Por um lado os alísios, refertos da umidade captada na travessia do Atlântico, ao tocarem a superfície calcinada dos sertões superaquecem-se, conservando, no altear o ponto de saturação, as chuvas que conduzem; e repelidos pelas colunas ascencionais dos ares em fogo, que se alevantam das chapadas desnudas, refluem às alturas e vão rolando para o sudoeste, indo condensar, nas vertentes dos rios que derivam para o Amazonas e para o Prata, as águas que originam os seus cursos perenes e a fecundidade das terras.

Por outro lado, aqueles titânicos caboclos, que a desventura expulsa dos lares modestíssimos, têm levado a todos os recantos desta terra o heroísmo de uma atividade incomparável: povoaram a Amazônia; e do Paraguai ao Acre estadearam triunfalmente a sua robustez e a sua esplêndida coragem de rija sub-raça já constituída.

Assim, sob um duplo aspecto nós devemos, em parte, à sua miséria um pouco da nossa opulência relativa, e às suas desgraças a melhor parte da nossa glória.

E esta dívida tem mais de quatrocentos anos...

CAPÍTULO II

Delineando no artigo anterior um fugitivo esboço da reação contra o clima singular que vitima todo o norte do Brasil, vimos de relance os vários recursos que, simultaneamente aplicados, poderiam melhorá-lo; mas do mesmo passo verificamos que a ação governamental seria ilusória se não a esclarecessem os elementos e dados positivos adquiridos em um aturado estudo daquelas paragens, sistematicamente executados por um grupo permanente de profissionais que, mercê de uma longa estada sobre o território, estabelecessem com a sua natureza, ainda em grande parte desconhecida, uma estreita intimidade, facultando-lhes o conhecimento de seus variadíssimos aspectos e, ao cabo, a revelação completa dos agentes nefastos que a malignam e devastam.

Não vai nisto a teimosia impertinente de um teórico incorrigível. Esta exploração científica da terra - coisa vulgaríssima hoje em todos os países — é uma preliminar obrigatória do nosso progresso, da qual nos temos esquecido indesculpavelmente, porque neste ponto rompemos com algumas das mais belas tradições do nosso passado. Realmente, a simples contemplação dos últimos dias do regime colonial, nas vésperas da independência, revela-nos as figuras esculturais de alguns homens que hoje mal avaliamos, tão apequenadas andam as nossas energias, e tão grandes o descaso e o desamor com que nos voltamos para os interesses reais deste país. Ricardo Franco de Almeida Serra, Silva Pontes e Lacerda e Almeida são hoje uns quase anônimos. Entretanto, os estóicos astrônomos, que os grosseiros agulhões mal norteavam nas espessuras nunca percorridas, sem o arsenal suntuoso dos atuais aparelhos, determinaram as coordenadas dos mais remotos pontos e desvendaram muitos traços proeminentes da nossa natureza. Ao último não lhe bastou o perlustrar o Brasil de extremo a extremo. Transpôs o mar, e foi atravessar a África . . .

Não se podiam encontrar melhores mestres, nem mais empolgantes exemplos. Mas, precisamente ao adquirirmos a autonomia política — talvez porque com ela ilogicamente se deslocasse toda a vida nacional para os litorais agitados — olvidamos a terra; e os esplendores do céu, e os encantos das paisagens, e os deslumbramentos recônditos das minas, e as energias virtuais do solo, e as transfigurações fantásticas da flora, entregamo-los numa inconsciência de pródigos sem tutela, à contemplação, ao estudo, ao entusiasmo, e à glória imperecível de alguns homens de outros climas. Ao nosso nativismo nascente — e já ouriçado com os estilhaços dilaceradores da noite das garrafadas, não escandalizaram os ww ensarilhados, os yy sibilantes, e o estalar dos kk, e o ranger emperrado dos rr de alguns nomes arrevesados e estranhos. Koster, John Mawe, Wied-Newied, Langsdorf, Aug. Saint-Hilaire... primeiros termos de uma série, onde aparecem, num constrangimento de intrusos, raros nomes brasileiros – e que veio quase interrupto até Frederico Hart, e que aí está contínua, imperecível e fecunda com Eugen Hussack, Orville Derby e Emílio Goeldi.

Ora, quaisquer que sejam os inestimáveis serviços deste grupo imortal de abnegados, são desanimadores.

Não lhes admiremos o brilho até à cegueira. Porque afinal é lastimável que ainda hoje procuremos nas velhas páginas de Saint-Hilaire... notícias do Brasil. Alheamo-nos desta terra. Criamos a extravagância de um exílio subjetivo que dela nos afasta, enquanto vagueamos como sonâmbulos pelo seu seio desconhecido.



(continua...)

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