Por Euclides da Cunha (1907)
Não raro o antagonismo avulta e enreda-se ao ponto de dirimir-se nos tribunais. Há tempos o imperador, no meio de seus pensares, teve uma idéia surpreendente: construir mais igrejas em Berlim. Uma obsessão de artista. Entristecia-o, talvez, o belo firmamento berlinês, arqueado e vazio sobre as casernas acaçapadas, ou chatos alpendres de fábricas, sem o delicado granito das rosáceas, sem um grande, arrebatador e vivo tumultuar de campanários alterosos... E a este propósito fez que ressurgisse uma lei obsoleta, de há quatro séculos, pela qual a cidade se obrigava a construir um número de templos proporcional ao de habitantes. O fóssil decreto medieval, porém, caiu estrepitosamente sob a condenação dos juizes...
Assim por diante.
E natural que a Alemanha se isole, perenemente ameaçadora e ameaçada. Nada se pode prever na sua política ferrotoada de caprichos. Rodeia-se a suspeita receosa das nações.
E, no momento agudo que vai passando, nesta vasta crise universal apenas começada nos recantos do Extremo Oriente, quando os máximos resguardos presidem os atos de todos os governos, devem-se aguardar todas as surpresas da volubilidade alarmante e das arrancadas românticas daquele minúsculo deus do Edda, desgarrado na terra e errando entre as gentes — incompreendido, idealista e temeroso — como se fosse um neto retardatário das Walkyrias...
Baixar texto completo (.txt)CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.