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#Comédias#Literatura Brasileira

Lição de Botânica

Por Machado de Assis (1906)

D. CECÍLIA

— É o Sr. Barão Sigismundo de Kernoberg? (O barão faz um gesto afirmativo.) Recebeu. Queira entrar e sentar-se. (À parte.) Devo estar vermelha... BARÃO, à parte, olhando para Cecília — Há de ser esta.

D. CECÍLIA, à parte

— E titia não vem... Que demora! Não sei que lhe diga... estou tão vexada... (O Barão tira um livro da algibeira e folheia-o.) Se eu pudesse deixá lo... É o que vou fazer... (Sobe.)

BARÃO, fechando o livro e erguendo-se

— V. Exa. há de desculpar-me. Recebi hoje mesmo este livro da Europa; é obra que vai fazer revolução na ciência; nada menos que uma monografia das gramíneas, premiada pela Academia de Estocolmo.

D. CECÍLIA

— Sim? (À parte.) Aturemo-lo, pode vir a ser meu tio.

BARÃO

— As gramíneas tem ou não tem perianto3? A princípio adotou-se a negativa, posteriormente...V. Exa. talvez não conheça o que é perianto... D. CECÍLIA — Não, senhor.

BARÃO

— Perianto compõe-se de duas palavras gregas: peri, em volta, e anthos, flor.

D. CECÍLIA

— O envólucro da flor.

BARÃO

— Acertou. É o que vulgarmente se chama de cálice. Pois as gramíneas eram tidas... (Aparece D. Leonor ao fundo.) Ah!

Cena IV

Os mesmos, D. Leonor

D. LEONOR

— Desejava falar-me?

BARÃO

— Se me dá essa honra. Vim sem esperar resposta à minha carta. Dez minutos apenas.

D. LEONOR

— Estou às suas ordens.

D. CECÍLIA

— Com licença. (À parte, olhando para o céu.) Ah! Minha Nossa Senhora! (Retira-se pelo fundo.)

Cena V D. Leonor, Barão

3 Parte protetora da flor, composta de cálice e corola.

BARÃO

— Sou o Barão Sigismundo de Kernoberg, seu vizinho, botânico de vocação, profissão e tradição, membro da Academia de Estocolmo, e comissionado pelo governo da Suécia para estudar a flora da América do Sul. V. Exa. dispensa a minha biografia? (D. Leonor faz um gesto afirmativo.) Direi somente que o tio de meu tio foi botânico, meu tio era botânico, eu botânico, e meu sobrinho há de ser botânico. Todos somos botânicos de tios a sobrinhos. Isto de algum modo explica minha vinda a esta casa.

D. LEONOR

— Oh! o meu jardim é composto de plantas vulgares.

BARÃO, gracioso

— É porque as melhores flores estão dentro de casa. Mas V. Exa. engana-se; não venho pedir nada do seu jardim.

D. LEONOR

— Ah!

BARÃO

— Venho pedir-lhe uma coisa que lhe há de parecer singular.

D. LEONOR

— Fale.

BARÃO

— O padre desposa a igreja; eu desposei a ciência. Saber é o meu estado conjugal; os livros são a minha família. Numa palavra, fiz voto de celibato.

D. LEONOR

— Não se casa.

BARÃO

— Justamente. Mas, V. Exa. compreende que, sendo para mim ponto de fé que a ciência não se dá bem com o matrimônio, nem eu devo casar, nem... V. Exa. já percebeu.

D. LEONOR

— Coisa nenhuma.

BARÃO

— Meu sobrinho Henrique anda estudando comigo os elementos da botânica. Tem talento, há de vir a ser um luminar da ciência. Se o casamos, está perdido.

D. LEONOR

— Mas...

BARÃO, à parte

— Não entendeu. (Alto.) Sou obrigado a ser mais franco. Henrique anda apaixonado por uma das suas sobrinhas, creio que esta que saiu daqui, há pouco. Impus-lhe que não voltasse a esta casa; ele resistiu-me. Só me resta um meio: é que V. Exa. lhe feche a porta.

D. LEONOR

— Senhor barão!

BARÃO

— Admira-se do pedido? Creio que não é polido nem conveniente. Mas é necessário, minha senhora, é indispensável. A ciência precisa de mais um obreiro: não o encadeiemos no matrimônio.

D. LEONOR

— Não sei se devo sorrir do pedido.

BARÃO

— Deve sorrir, sorrir e fechar-nos a porta. Terá os meus agradecimentos e as bençãos da posteridade.

D. LEONOR, sorrindo

— Não é preciso tanto; posso fechá-la de graça.

BARÃO

— Justo. O verdadeiro benefício é gratuito.

D. LEONOR

— Antes, porém, de nos despedirmos, desejava dizer uma coisa e perguntar outra. (O Barão curva-se.) Direi primeiramente que ignoro se há tal paixão da parte de seu sobrinho; em segundo lugar, perguntarei se na Suécia estes pedidos são usuais.

BARÃO

— Na geografia intelectual não há Suécia nem há Brasil; os países são outros: astronomia, geologia, matemáticas; na botânica são obrigatórios.

D. LEONOR

— Todavia, à força de andar com flores... deviam os botânicos trazê las consigo.

BARÃO

— Ficam no gabinete.

D. LEONOR

— Trazem os espinhos somente.

BARÃO

— V. Exa. tem espírito. Compreendo a afeição de Henrique a esta casa. (Levanta-se.) Promete-me então...

(continua...)

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