Por Machado de Assis (1867)
Dois meses antes tinham cessado as demoradas e sempre interrompidas relações que conservara com Francisca. Como estivesse afeito a esses silêncios longos não reparou em nada e preparou-se a causar a Francisca a mais deliciosa das surpresas. Se o tempo, se o gênero de vida, se as contrariedades tinham produzido em Daniel algum esquecimento pela poesia, nada alterou no que dizia respeito ao amor por Francisca. Era o mesmo amor, tão vivo como nos primeiros tempos, agora mais ainda, com a idéia de que se curvavam os desejos de ambos.
Chegando ao Rio de Janeiro não quis ir logo à casa de Francisca. Julgou que primeiro devia informar-se dela, da afeição que ela parecia ter por ele, enfim saber se era digna do amor que resistira ao tempo e à distância e que fora o sacrifício dos dons de Deus. Ora, ao entrar para o hotel em que pretendia ficar durante os primeiros dias, saiu-lhe ao encontro uma fisionomia conhecida.
— César! exclamou ele.
— Daniel! exclamou César.
E depois dos abraços e das primeiras perguntas, César convidou Daniel a tomar parte em um almoço que alguns amigos lhe ofereciam, em ação de graças pela nomeação de César para um cargo administrativo.
Daniel aceitou, foi apresentado, e a mais íntima confabulação travou-se entre todos os convivas.
Quando o almoço se terminou e todos os convivas se separaram, Daniel e César ficaram sós e subiram ao aposento que Daniel tinha mandado preparar.
César foi quem falou em primeiro lugar.
— Ora, não me dirás, agora que estamos a sós, que motivo te levou da corte e onde estiveste durante estes seis anos?
— Estive em Minas Gerais.
— Fizeste fortuna, pelo que vejo?
— Alguma.
— Mas que motivo?
— O motivo foi um motivo de amor.
— Ah!
— Amava uma rapariga com quem não consentiram que eu casasse sem possuir fortuna...
— E tu?
— Sacrifiquei a musa da poesia à musa da indústria. Fui desencavar a apólice mais valiosa do meu coração, e aqui estou pronto para entrar no templo da felicidade. — Quem é essa feliz criatura?
— Oh! isso depois...
— Tens receio...
— Não...
— É do meu conhecimento?
— Não, que eu saiba.
— Deus te faça feliz, meu poeta.
— Amém. E tu?
— Eu estou casado.
— Ah!
— É verdade; casado.
— És feliz?
— Acredito.
— Não afirmas?
— Acredito que sou; quem pode afirmar coisa alguma?
— Isso é verdade.
A reflexão de César fez cismar Daniel. Quem pode afirmar coisa alguma? repetia o ex poeta mentalmente.
— Moro na rua de... Vai lá ter amanhã, sim?
— Não sei; mas na primeira ocasião conta comigo.
— Estou quase sempre em casa. Toma.
E tirando um bilhete de visita em que havia o nome, a rua e o número da casa, entregou-o a Daniel.
Feito o que, separaram-se.
Daniel ficou só. Tratou de saber de alguns amigos e conhecidos antigos notícias de Francisca, e foi procurá-los. Quis a fatalidade que os não encontrasse. Nisso gastou a noite e o dia seguinte. Enfim, resolveu-se a ir procurar Francisca e aparecer-lhe como a felicidade tão longamente esperada e agora realizada e viva.
Em caminho fez e desfez mil projetos acerca do modo por que havia de aparecer à amada do seu coração. Nessas reflexões ia aborrecido, caminhando ao acaso, como movido por uma mola estranha.
No meio de um desses planos levantou os olhos e viu debruçada na grade de uma janela... quem? Francisca, a linda Francisca, por amor de quem fora tantas léguas distante, comer o pão suado do trabalho e da fadiga.
Soltou um pequeno grito. A moça, que até então fixava nele os olhos, como procurando reconhecê-lo, soltou outro grito e entrou.
Daniel, comovido e ébrio de felicidade, apressou o passo incerto e entrou no corredor da casa em que vira Francisca.
A casa não era a mesma, e o criado que servia de porteiro não era o mesmo que outrora patrocinava o amor de ambos. Mas Daniel pouco reparou nisso; subiu as escadas e só parou no patamar.
Aí descansou. Estava ofegante e ansiado. Não quis bater palmas; esperou que se lhe abrisse a porta. Daí a alguns minutos vieram abrir-lhe, e Daniel entrou na sala, onde não havia ninguém.
Sentou-se e esperou.
Esperou um quarto de hora.
Cada minuto deste quarto de hora parecia-lhe um século, tanta era a sede de tornar a ver aquela que até ali tinha feito palpitar o seu coração.
No fim do quarto de hora sentiu rumor de passos no corredor. Supôs que fosse o pai de Francisca e procurou acalmar-se de modo a dar confiança ao velho prático. Mas enganou-se; um rumor de sedas, mais distante, fez-lhe crer que era Francisca. Abriu-se a porta: era Francisca.
Era Francisca?
Ninguém o dissera.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Francisca. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.