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#Sermões#Retórica

Sermão da Glória de Maria, Mãe de Deus

Por Padre Antônio Vieira (1644)

33. Para inteligência desta verdade, nas mesmas palavras do Evangelho temos outra dúvida não menos dificultosa, que se deve averiguar primeiro. Esta, que o texto chama a melhor parte, diz o mesmo texto que Maria a escolheu: Maria optimam partem elegit. E também esta escolha não tem lugar, nem se pode verificar na glória da Senhora. A eleição para a glória é só de Deus; Deus é o que elegeu e escolheu para a glória a todos os bem-aventurados, que por isso se chamam escolhidos. E, ainda que entre todos os escolhidos a Senhora tenha o primeiro e mais sublime lugar, ela também foi escolhida, e não a que escolheu. Assim a canta a Igreja, quando canta a mesma entrada da Senhora no céu: Elegit eam Deus, et praeelegit eam, in tabernaculo suo habitare facit eam. Pois se Maria foi escolhida para a glória que tem no céu e a escolha foi de Deus, e não sua, como diz a mesma Igreja nas palavras que lhe aplica, que a Senhora foi a que escolheu e elegeu esta melhor parte: Maria optimam partem elegit? Na inteligência desta segunda dúvida consiste a solução da primeira. Ora vede, e com atenção. É certo que a Senhora foi escolhida por Deus para a glória, e também é certo que a glória de Deus é infinitamente maior que a glória da Senhora, e contudo, diz o Evangelho, que Maria foi a que escolheu, e que escolheu a melhor parte, uma e outra coisa com grande mistério e energia. Diz que Maria foi a que escolheu, porque, ainda que a eleição não foi da Senhora, a grandeza de sua glória é tão imensa, que não parece que foi a glória escolha para ela, senão que ela foi a que a escolheu para si. E diz que Maria escolheu a melhor parte, porque, ainda que a glória de Deus é infinitamente maior que a sua, a melhor parte que pode escolher uma mãe, é que a glória de seu filho seja a maior. Como Maria é mãe de Deus, e Deus filho de Maria, mais se gloria a Senhora de que seu Filho goze esta infinidade de glória, e de ela a gozar em seu Filho, do que se a gozara em si mesma. E daqui se segue que, considerada a glória de Deus e a glória de Maria em duas partes, porque a parte de Deus é a máxima, por isso a parte de Maria é a ótima: Maria oprimam partem elegit.

34. Para todos os que sois pais e mães, não hei mister maior nem melhor prova do que digo que os vossos próprios afetos e o ditame natural dos vossos corações. Dizei-me: se houvera neste mundo uma dignidade, uma honra, uma glória maior que todas, e se pusera na vossa eleição, e na vossa escolha querê-la para vós ou para vosso filho, para quem a havíeis de querer? Não há dúvida que para vosso filho. Pois isto mesmo é o que devemos considerar na glória da Senhora. É verdade que a glória de Deus é infinitamente maior que a de sua Mãe; mas como todo esse excesso de glória é de seu filho, e está em seu filho, ela a possui e goza em melhor parte, que se a gozara em si mesma. Assim entendo e suponho que o entendem todos os que são pais e mães. Mas porque muitos dos que me ouvem não têm esta experiência, e porque em algum coração humano, ainda que paterno ou materno, pode estar este mesmo afeto menos bem ordenado, para a glória da Senhora da Glória, e para maior evidência de que mais gloriosa é pela glória de seu Filho que pela sua, e que gozando nele toda essa glória, a goza na melhor parte, ouçamos e provemos esta mesma verdade, pelo testemunho universal e concorde de todas as letras sagradas, eclesiásticas e profanas. No primeiro lugar ouvireinos os filósofos, no segundo os Santos Padres da Igreja, no terceiro as Escrituras divinas, e no último ao mesmo Deus na pessoa do Pai. E vereinos quão conforme foi o seu afeto como desta soberana Mãe, pois ambos são Pai e Mãe do mesmo Filho.

§III

Em primeiro lugar os filósofos. A dúvida de Sêneca: pode um filho vencer em benefício a seu pai? Os exemplos de Enéias e de Antígono. Paralelo de Ovídio entre os dois primeiros Césares. Não pode haver maior glória para um pai que ver-se vencido de seu filho. Plutarco, e o exemplo de Filipe de Macedônia e Alexandre Magno. Apóstrofe de Claudiano ao imperador Teodósio.

35. Comecemos pelos filósofos. Põe em questão Sêneca,3 e disputa sutilíssimamente, no livro terceiro dos cinco que intitulou De Beneficiis, se pode um filho vencer em algum benefício a seu pai. A razão de duvidar é porque o primeiro e maior benefício é o ser, e, havendo o pai dado o ser ao filho, o filho não pode dar o ser a seu pai. Mas esta diferença não tem lugar no nosso caso, porque falamos de um pai e de sua filha, em que o pai é justamente pai e filho da mesma mãe, e a mãe é justamente mãe e filha do mesmo Pai. Abstraindo porém deste impossível da natureza, que os filósofos gentios não conheceram, resolve o mesmo Sêneca, que bem pode um filho vencer no maior benefício a seu pai, e o prova com o exemplo de Enéias, o qual por meio das lanças dos gregos, e do incêndio e labaredas de Tróia, levando sobre os seus ombros ao velho Anquises, deu mais heroicamente a vida a seu pai, do que dele a recebera. À vista deste famoso espetáculo de valor e de piedade, não há dúvida que venceu o filho ao pai; mas qual foi então mais glorioso, o filho vencedor, ou o pai vencido? A este exemplo ajunta o mesmo filósofo o de Antígono, e de outros, que deram a seus pais mais ainda que o ser e a vida que lhes deviam, e conclui assim: Felices qui vicerint, felices qui vincentur: quid autem est felicius quam sic cedere?

Quando os filhos vencem os pais, e se ostentam maiores que eles, felizes são os que vencem, e felizes os vencidos, mas muito mais felizes os pais vencidos que os filhos vencedores, porque não pode haver maior gosto nem maior glória para um pai, que ver-se vencido de seu filho. Grande glória é do filho que vença ao pai que lhe deu o ser; mas muito maior glória é do mesmo pai ver que deu o ser a um tal filho, que o vença a ele.

(continua...)

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