Por Gregório de Matos (1693)
Mas seja formosa, ou feia,
se o Deão me há de enterrar,
por mais formosa que seja,
sempre caveira será.
Todos aqui desconfiam
tudo é já desconfiar
da minha vida os doutores
e eu do vosso natural.
Desconfio, de que abrande
vosso rigor pertinaz,
e a minha vida sem cura
sem dúvida acabará.
Porque se estais incurável,
e tão sem remédio vai
o achaque de não querer-me,
e o mal de querer-me mal:
Que esperança posso ter,
ou que remédio há capaz,
se vós sois a minha vida,
e morreis por me matar?
Amor é união das almas
em conformidade tal,
que, porque estais sem remédio,
por contágio me matais.
Curai-me do mal querer-me,
e do fastio, em que estais
à minha triste figura,
que ao demo enfastiará.
Comei, e seja o bocado,
que corn gosto se vos dá,
porque em vós convalescendo,
então me hei de eu levantar.
Assim sararemos ambos,
porque se vós enfermais
pelo contágio, o remédio
por simpatia será.
Vós, Babu, virais-me as costas?
pois eu feito outro que tal,
estou às portas da morte,
e a fala me falta já.
Quero fazer testamento;
mas já não posso falar,
que vós por costume antigo
sempre a fala me quitais.
Mas testarei por acenos,
que tudo em direito há
e se por louco não posso,
posso por louco em amar.
Todos meus bens, se os tivera.
os deixara a vós não mais,
mas deixo-vos para os outros,
que é, o que posso deixar.
Se hei de deixar-me a vós
quantos bens no mundo há,
em vos deixar a vós mesma,
arto deixada ficais.
Em sufrágios da minha alma
não gasteis o cabedal,
que aos vossos rigores feito,
penas não hei de estranhar.
Mas se por minhas virtudes,
ou se por vos jejuar,
ou se por tantas novenas,
que à vossa imagem fiz já:
Vos mereço algum perdão
dos pecados, que fiz cá,
assim em vos perseguir,
como em vos desagradar:
Com as mãos postas vos peço,
que no vosso universal
juízo mandeis minha alma
ao vosso céu descansar.
Não a mandeis ao inferno
que arto inferno passou cá,
Adeus, apertai-me a mão,
que eu já vou a enterrar.
ENFERMOU E O POETA DA VISTA DE BARBORA, FEZ O SEU TESTAMENTO, E
ACABOU OS DIAS: MAS APENAS FOY VISTO PELA MESMA DAMA LOGO
RESURGIO PARA NOVAS FINEZAS: E ISTO HE SER LAZARO DE AMOR. DIZ, QUE
SE HA DE CASAR COM BARBORA, E EM CONSCIENCIA O PODIA FAZER: PORQUE
QUEM RESURGE, NÃO ESTÁ OBRIGADO AO PRIMEYRO MATRIMONIO.
1
Ontem para ressurgir
vos tornei, Babu, a ver,
e tornou-se-me a acender
o gosto de vos servir:
não vos quereis persuadir,
a que eu com todo o primor
mereça o vosso favor,
porque em casando-me absorto
cuida o Brasil, que sou morto
para negócios de amor.
2
O Brasil é um velhaco,
um falso, e um embusteiro,
porque ou casado, ou solteiro
quanto ensaco, desensaco:
e a vez que me desataco,
a pecúnia tanta, ou quanta
deu por pagar mercê tanta;
porque sei, que na Bahia
a coisa por qualquer via
val, conforme se levanta.
3
Se por casado não sigo
a dita de vos servir,
daqui venho a inferir,
que quereis casar comigo:
casemo-nos, que o perigo,
que eu corro, é ser açoutado
por duas vezes casado;
e quando nisto me encoutem,
que me dá a mim, que me açoutem
depois de vos ter logrado?
4
A Cota, que é toda treta,
vendo, que o algoz madraço
me vai limpando o espinhaço
com toalha de vaqueta,
rirá como uma doideta,
e dando um, e outro amém,
alegre dirá, inda bem,
que me deu Deus um cunhado
homem de bem no costado,
e nas costas de rebém.
5
Ora sus, minha Senhora
já me canso de esperar,
dai-vos pressa a me chamar,
e não seja ali a desoras:
que para quem se namora
de vários aventureiros,
se os quer trazer prazenteiros,
há de ter sempre chamados
ao meio-dia os casados,
e à meia-noite os solteiros.
ESTA CANTIGA ACCOMODA O POETA COM PROPORÇÃO À BARBORA PELO
NOME E TRATO, NÃO DEYXANDO DE FORA OS SEUS AMANTES DEZEJOS.
MOTE
Pobre de ti, Barboleta,
imitação do meu mal,
que ern chegando ao fogo morres,
porque morres, por chegar.
1
Passeias em giro a chama,
simples Barboleta, em hora,
que se a chama te enamora,
teu mesmo estrago te chama:
se o seu precipício ama,
quem o seu mal inquieta,
e tu simples, e indiscreta
tens por formosura grata
luz, que traidora te mata,
Pobre de ti, Barboleta.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.