Por Gregório de Matos (1696)
Minha Senhora Dona Caterina,
Posto que montam pouco os meus engodos,
Agora os junto, e os engrazo todos,
Chamando a minha Mãe minha Menina.
Já sabeis, que me faz fome canina
Lise, de cujos agradáveis modos
Não são para servir de seus apodos
Os astros dessa esfera cristalina.
Tratai de me fartar esta vontade
em uma grade, como em uma boda,
Que é pouco em cada mês uma só grade.
Pois toda a Mãe seus Filhos acomoda,
Adverti, que parece crueldade,
Que sendo Caterina deis a roda.
NO DIA EM QUE O POETA EMPRENDEO GALANTEAR HUA FREYRA DO MESMO CONVENTO SE LHE PEGOU O FOGO NA CAMA, E INDO APAGAR-LO, QUEYMOU UMA MÃO.
Ontem a amar-vos me dispus, e logo
Senti dentro de mim tão grande chama,
Que vendo arder-me na amorosa flama,
Tocou Amor na vossa cela o fogo.
Dormindo vós com todo o desafogo
Ao som do repicar saltais da cama,
E vendo arder uma alma, que vos ama,
Movida da piedade, e não do rogo
Fizestes aplicar ao fogo a neve
De uma mão branca, que livrar-se entende
Da chama, de quem foi despojo breve.
Mas ai! que se na neve Amor se acende,
Como de si esquecida a mão se atreve
A apagar, o que Amor na neve incende.
QUEYXA-SE HUMA FREYRA DAQUELLA MESMA CASA, DE QUE SENDO VISTA HUA VEZ DO POETA, SE DESCUYDAVA-SE DE À TORNAR A VER.
Quem a primeira vez chegou a ver-vos,
Nise, e logo se pôs a contemplar-vos,
Bem merece morrer por conversar-vos,
E não pode viver sem merecer-vos.
Não soube ver-vos bem, nem conhecer-vos
Aquele, que outra vez deseja olhar-vos,
Pois não caiu nos riscos de tratar-vos,
Quem quer, que lhe queirais por já querer-vos.
Essas luzes de amor ricas, e belas
Vê-las basta uma vez, para admirá-las,
Que vê-las outra vez, será ofendê-las.
E se por resumi-las, e contá-las,
Não se podem contar, Nise, as estrelas,
Nem menos à memória encomendá-las.
A HUMA FREYRA QUE NAQUELLA CASA SE LHE APRESENTOU RICAMENTE VESTIDA, E COM UM REGALO DE MARTAS.
De uma rústica pele, que antes dera
A um bruto monte, fez regalo Armida,
Por ser na fera a gala conhecida,
Como na condição já dantes era.
Menos que Armida já se considera
Ser a fera, pois perde a doce vida
Por Armida cruel: e esta homicida
Por vestir a fereza, despe a fera.
Se era negra, e feroz por natureza,
Com tal mão animada a pele goza
De um cordeirinho a mansidão, e a alvura.
Oh que tal é de Armida a mão formosa!
Que faz perder às feras a fereza,
E trocar-se a fealdade em formosura.
A OUTRA FREYRA, QUE SATYRIZANDO A DELGADA FIZIONOMIA DO POETA LHE CHAMOU PICAFLOR.
Se Pica-flor me chamais,
Pica-flor aceito ser,
mas resta agora saber,
se no nome, que me dais,
meteis a flor, que guardais
no passarinho melhor!
se me dais este favor,
sendo só de mim o Pica,
e o mais vosso, claro fica,
que fico então Pica-flor.
QUEYXA-SE O POETA DAS FUNDADORAS, QUE VIERAM DE EVORA, POR NÃO PODER CONSEGUIR ALGUM GALANTEYO NAQUELLA CASA, E SEREM SOMENTE ADMITTIDOS FRADES FRANCISCANOS.
1
Estamos na cristandade?
Sofrer se há isto em Argel,
que um convento tão novel
deixe um leigo por um Frade?
que na roda, ralo, ou grade
Frades de bom, e mau jeito
comam merenda e eito,
e estejam a seu contento
feitos papas do convento,
porque andam co papo feito?
2
Se engordar a fradaria
a esta cidade os trouxeram,
melhor fora, que vieram,
sustentar a Infantaria:
que importa, que cada dia
façam obras, casas fundem,
se os Fradinhos as confundem
por modo tão execrando,
que quanto elas vão fundando,
tudo os Frades lhes refundem.
3
Pelo jeito, que isto leva,
cuidam, que em Évora estão,
onde de Inverno, e Verão
se põem os marrões de ceva:
nenhuma jamais se atreva
sob pena de excomunhão
a cevar o seu marrão,
que se em tais calamidades
me asseguram, que são Frades
arto em cevá-los lhe irão.
4
Sirvam-se do secular,
que ali está o garbo, o asseio,
o primor, o galanteio,
a boa graça, o bom ar:
a este lhe hão de falar
à grade, ao pátio, ao terreiro,
que o secular todo é cheiro,
e o Frade a mui limpo ser,
sempre há de vir a feder
ao cepo de um Pasteleiro.
5
Em chegando à grade um Frade
sem mais carinho, nem graça,
o braço logo arregaça,
e o trespassa pela grade:
e é tal a qualidade
de qualquer Frade faminto,
que em um átomo sucinto
se vê a freira coitada
como um figo apolegada,
e molhada como um pinto.
6
O secular entendido,
encolhido e mesurado
não pede de envergonhado,
não toma de comedido:
cortesmente de advertido,
e de humilde cortesão
declara a sua afeição,
e como se agravo fora,
chama-lhe sua Senhora,
chama-lhe, e pede perdão.
(continua...)
MATOS, Gregório de. A freira: ralo, roda e grade In:. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1992.