Por Machado de Assis (1864)
Mas, tu passaste... Houve um grito
Dentro de mim. Aos meus olhos
Visão de amor infinito,
Visão de perpétuo gozo
Perpassava e me atraía,
Como um sonho voluptuoso
De sequiosa fantasia.
Ergui-me logo do chão,
E pousei meus olhos fundos
Em teus olhos soberanos,
Ardentes, vivos, profundos,
Como os olhos da beleza
Que das escumas nasceu...
Eras tu, maga visão
Eras tu o ideal sonhado
Que em toda a parte busquei,
E por quem houvera dado
A vida que fatiguei;
Por quem verti tanto pranto,
Por quem nos longos espinhos
Minhas mãos, meus pés sangrei!
Mas se minh'alma, acaso, é menos pura
De que era pura nos primeiros dias,
Por que não soube em tantas agonias
Abençoar a minha desventura;
Se a blasfêmia os meus lábios poluíra,
Quando, depois de tempo e do cansaço,
Beijei a terra no mortal abraço
E espedacei desanimado a lira;
Podes, visão formosa e peregrina,
No amor profundo, na existência calma
Desse passado resgatar minh'alma
E levantar-me aos olhos teus, -- Corina!
III
Quando voarem minhas esperanças
Como um bando de pombas fugitivas;
E destas ilusões doces e vivas
Só me restarem pálidas lembranças;
E abandonar-me a minha mãe
Quimera, Que me aleitou aos seios abundantes;
E vierem as nuvens flamejantes
Encher o céu da minha primavera;
E raiar para mim um triste dia,
Em que, por completar minha tristeza
Nem possa ver-te, musa da beleza,
Nem possa ouvir-te, musa da harmonia;
Quando assim seja, por teus olhos juro,
Voto minh'alma à escura soledade,
Sem procurar melhor felicidade,
E sem ambicionar prazer mais puro,
Como o viajor que, da falaz miragem,
Volta desenganado ao lar tranqüilo
E procura, naquele último asilo,
Nem evocar memórias da viagem;
Envolvido em mim mesmo, olhos cerrados
A tudo mais,—a minha fantasia
As asas colherá com que algum dia
Quis alcançar os cimos elevados.
És tu a maior glória de minha alma,
Se o meu amor profundo não te alcança
De que me servirá outra esperança?
Que glória tirarei de alheia palma?
IV
Tu que és bela e feliz, tu que tens por diadema
A dupla irradiação da beleza e do amor;
E sabes reunir, como o melhor poema,
Um desejo da terra e um toque do Senhor;
Tu que, como a ilusão, entre névoas deslizas
Aos versos do poeta um desvelado olhar,
}Corina, ouve a canção das amorosas brisas,
Do poeta e da luz, das selvas e do mar.
AS BRISAS
Deu-nos a harpa eólia a excelsa melodia
Que a folhagem desperta e torna alegre a flor,
Mas que vale esta voz, ó musa da harmonia,
Ao pé da tua voz, filha da harpa do amor?
Diz-nos tu como houveste as notas do teu canto?
Que alma de serafim volteia aos lábios teus?
Donde houveste o segredo e o poderoso encanto
Que abre a ouvidos mortais a harmonia dos céus?
A LUZ
Eu sou a luz fecunda, alma da natureza;
Sou o vivo alimento à viva criação.
Deus lançou-me no espaço. A minha realeza
Vai até onde vai meu vívido clarão.
Mas, se derramo vida a Cibele fecunda,
Que sou eu ante a luz dos teus olhos? Melhor,
A tua é mais do céu, mais doce, mais profunda.
Se a vida vem de mim, tu dás a vida e o amor.
AS ÁGUAS
Do lume da beleza o berço celebrado
Foi o mar; Vênus bela entre espumas nasceu.
Veio a idade de ferro, e o nume venerado
Do venerado altar baqueou: —pereceu.
Mas a beleza és tu. Como Vênus marinha
Tens a inefável graça e o inefável ardor.
Se paras, és um nume; andas, uma rainha.
E se quebras um olhar, és tudo isso e és amor.
Chamam-te as águas, vem! tu irás sobre a vaga.
A vaga, a tua mãe que te abre os seios nus,
Buscar adorações de uma plaga a outra plaga.
E das regiões da névoa às regiões da luz!
AS SELVAS
Um silêncio de morte entrou no seio às selvas.
Já não pisa Diana este sagrado chão,
Nem já vem repousar no leito destas relvas
Aguardando saudosa o amor e Endimião.
Da grande caçadora a um solicito aceno
Já não vem, não acode o grupo jovial;
Nem o eco repete a flauta de Sileno,
Após o grande ruído a mudez sepulcral.
Mas Diana aparece. A floresta palpita,
Uma seiva melhor circula mais veloz;
É vida que renasce, é vida que se agita;
À luz do teu olhar, ao som da tua voz!
O POETA
Também eu, sonhador, que vi correr meus dias
Na solene mudez da grande solidão,
E soltei, enterrando as minhas utopias,
O último suspiro e a última oração;
Também eu junto à voz da natureza,
E soltando o meu hino ardente e triunfal,
Beijarei ajoelhado as plantas da beleza,
E banharei minh'alma em tua luz, — Ideal!
(continua...)
ASSIS, Machado de. Versos a Corina. In: ASSIS, Machado de. Crisálidas. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1864.