Por Machado de Assis (1877)
O sr. Mateus, que para resistir ao golpe, tirara a boceta de tabaco, tomou uma pitada, dando tempo ao cérebro de redigir uma resposta. E foi bom isso; porque lembrou-lhe a tristeza misteriosa de José Cândido e teve a idéia de pedir o auxílio da prima. — Fiar, não fio, disse ele; mas dou-lhe um açucareiro e um bule, que aí tenho, de muito gosto.
E foi buscar os dois objetos em um canto de uma das prateleiras.
— O bule tem um pequeno defeito na asa, disse ele; e é pena, porque é bonito; este friso azul dá muita graça. Aceita?
— Ora, com muito gosto! Bem bonitos!
— Embrulhe isso, ordenou o sr. Mateus ao caixeiro.
E sem mais demora, enquanto o caixeiro embrulhava a louça, o sr. Mateus expunha à prima a causa de suas preocupações e pedia-lhe auxílio.
— Aquilo pode ser negócio de namoro... Um pai sempre deve dar-se ao respeito. A sra. D. Inácia, que acompanhara a confidência com gestos afirmativos de cabeça, em chegando àquele ponto compreendeu logo o que o sr. Mateus lhe queria dizer. Compreendeu e aceitou.
— Eu lhe falo, não tem dúvida. Eu pergunto assim como coisa minha... descanse.
— Hoje é quinta, não? talvez no sábado.
— Pois sim; veja-me isso... Veja se ele lhe conta alguma coisa.
— Deixe comigo, disse a sra. D. Inácia, erguendo-se e sobraçando o embrulho de louça, por baixo do grande xale de ramagens.
E saiu a sra. D. Inácia.
II
José Cândido, logo que saiu de casa, dirigiu-se à Rua da Imperatriz, e entrou no corredor de um sobrado.
— O sr. capitão está em casa?
— Quem é? perguntou de dentro uma voz irritada.
— Um seu criado, disse José Cândido.
Entrou.
O dono da casa veio recebê-lo à porta da sala, com um ar que contrastava com a voz de há pouco, mas não com a voz que empregou então, a qual era doce a mais não poder.
— Venha cá, venha cá, disse ele; cuidei que já nos tinha esquecido.
— Estive cá anteontem.
— Pois então! Dois dias parece-lhe pouco?
José Cândido sentiu-se satisfeito; entrou; sentou-se em uma cadeira de balanço, que o dono da casa lhe ofereceu. Era este o capitão Fabrício, um homem alto e cheio, grisalho, de olhos velhacos e pretos.
— Quer tomar alguma coisa?
— Não, senhor; obrigado.
Fabrício sentou-se também, esfregou as mãos, bateu com elas nos joelhos, exclamando:
— Então parece que a coisa vai!
— Ora, se vai!
— Ou tudo leva a breca! concluiu José Cândido com ar marcial.
— Apoiado!
Seguiu-se um silêncio. Fabrício foi o primeiro que falou:
— Tem feito alguma das suas?
— Tenho. Um barbeiro lá da minha rua, e dois oficiais da mesma loja, que já estavam apalavrados com os outros, declararam-me ontem que votam conosco.
— Assim! assim!... é preciso não esmorecer. Hoje dois, amanhã três, no fim das contas faz-se um rombo no inimigo.
E o capitão riu com um riso franco, amigável, paternal, enquanto José Cândido, com os olhos nos bicos dos botins, tinha o mesmo ar com que o pai o fora achar nessa manhã.
— Eu, sr. capitão... disse ele ao cabo de alguns segundos; queria falar-lhe numa coisa.
— Diga, diga.
— Talvez... pode ser... mas...
— Mas?
— Não me atrevo...
— Atreva-se.
— Queria dizer... sim... posso contar com sua proteção?
— Toda, toda, sr. José Cândido; pode contar comigo para tudo o que for de seu agrado. Tinha que ver, que não pudesse contar com a boa vontade dos correligionários, um homem que tem feito o que o senhor tem feito. Diga, o que é?
José Cândido mostrou-se animado com esse tom, pôs toda a alma nas mãos e preparou se para desembuchar o seu segredo, enquanto Fabrício, com o ar mais afetuoso e serviçal que possuía, esperava que ele começasse a falar.
José Cândido falou.
Nunca a voz trêmula da donzela, que pela primeira vez confessa que ama, nunca foi mais doce, mais úmida. Os olhos, ora no chão, ora no teto, pareciam envergonhados da audácia do dono. A face, ordinariamente amarela como as gravatas, fez-se vermelha como os botões de vidro do colete. A mão tremia, o lábio tremia, todo ele tremia.
— Eu, sr. Capitão, disse ele, eu desejava... ambicionava... supunha... sim... queria ser eleitor...
O capitão entrelaçou um riso e uma careta, fez um gesto de cabeça e piscou os olhos.
— Ambição legítima, disse ele; ambição muito legítima, a mais legítima possível.
— Parece a V.S....
— Pois não há de parecer! Um homem digno, fiel ao partido, trabalhador...
— Por ora não tenho pedido nada.
— É verdade; não tem pedido nada.
— Então, posso contar? perguntou José Cândido no cúmulo da alegria. O capitão deitou-lhe um pouco de água na fervura.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um Ambicioso. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1877.