Por Euclides da Cunha (1907)
Outros ainda surgem, de improviso, no bolear os cerros, à meia encosta dos pendores, com a imagem perfeita de uns desgraciosos castelos, sem barbacãs e sem torres, gizados por essa arquitetura terrivelmente chata em que se esmeravam os nossos avós de há dois séculos. Entretanto, malgrado o deprimido das linhas, essas vivendas quadrangulares e amplas, sobranceando as senzalas abatidas, os moinhos estruídos, os casebres de "agregados", e alteando de chapa para a estrada os altos muramentos de pedra, que lhe sustentam os planos unidos dos terreiros, conservam o antigo aspecto senhoril.
Mas jazem para todo o sempre vazias, até que as destrua o absoluto abandono. Porque o caipira crendeiro, por menos célere que siga e por mais que o fustiguem os aguaceiros e os ventos, não pára às suas portas.
Segue, desabaladamente, sem desfitar as esporas dos flancos do cavalo, fazendo o "pelo sinal", e fugindo...
Nem um olhar para a vivenda sinistra e mal assombrada, onde imagina coisas pavorosas: constante pervagar de sombras; choros plangentes; ulular golpeante de espectros merencórios; aparições macabras; longos arrastamentos de correntes; e adoidados sabbats das almas vagabundas; e cabeças, e pernas, e braços, que despencam dos tetos e rompem das paredes, fundindo-se, improvisadamente, em demônios horrorosos...
E quem, curioso e incrédulo, as procura, justifica-lhes os temores.
Aproxima-se do largo portão desquiciado, de umbrais vacilantes, ou tensos; desapeia e avança pelos terreiros de pedra, arruinados; galga a velha escadaria, pulando sobre os degraus que faltam; e estaca no patamar, em cima, diante da porta, escancarada, da entrada, abrindo para o amplo salão deserto. Penetra-o.
Contempla, de relance, as molduras esborcinadas das paredes, e o teto onde adivinha resquícios de frisos dourados na cimalha de estuque. Enfia pelo longo corredor afogado no bafio angulhento do ambiente imóvel, para o qual se abrem as portas de outros repartimentos desertos, onde chiam e revoam desequilibradamente centenas de morcegos tontos. Chega à sala de jantar, deserta...
E naquela quietude sinistra, se não o amedrontam os ecos dos próprios passos, longos, reboantes, morrendo vagarosamente na habitação vazia, comoveos, irresistível, a visão retrospectiva dos belos tempos em que a vivenda senhoril pompeava triunfalmente no centro dos cafezais floridos.
Então era o tropear ruidoso das cavalgadas que chegavam; a longa escadaria onde rolavam saudações joviais, risos felizes, subidas e descidas tumultuarias entre os estrépitos argentinos das esporas; o vasto salão referto de convivas; a velha sala ornada para os banquetes ricos; e à noite as janelas resplandecendo, abertas para a escuridão e para o silêncio, golfando claridades e a cadência das danças, enquanto fora, no terreiro limpo, ao brilho das fogueiras, turbilhonava o samba dos cativos ao toar, melancólico e bruto, dos cachambus monótonos.
É um contraste comovente.
O viajante deixa a vivenda malsinada com uma emoção maior que a dos recoveiros: vai como quem foge. Rompe por um matagal bravio, onde adivinha os restos de um jardim, ou de um pomar; volve ao terreiro orlado de senzalas que desabam; transpõe o portão encombente; galga o cavalo e parte, disparando-o...
Não voltará mais: segue pelos caminhos em torcicolos, torneja outros morros escalvados, atravessa outras fazendas antigas, divisa outras vivendas desertas. depara outros caminhantes taciturnos; e ao encontrar, de momento a momento, intermináveis, como se andasse pelas avenidas de um velhíssimo cemitério — as mesmas "santas-cruzes" à orla dos caminhos, sente-se, sem o querer, invadido pelas crenças ingênuas dos caipiras.
Justifica-se, ao menos, como se, de fato, por ali vagassem, na calada dos ermos, todas as sombras de um povo que morreu, errantes, sobre uma natureza em ruínas.
CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.