Por Euclides da Cunha (1907)
Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.
É natural que todos os dias chegue do interior um telegrama alarmante denunciando o recrudescer do verão bravio que se aproxima. Sem mais o antigo ritmo, tão propício às culturas, o clima de S. Paulo vai mudando.
Não o conhecem mais os velhos sertanejos afeiçoados à passada harmonia de uma natureza exuberante, derivando na intercadência firme das estações, de modo a permitir-lhes fáceis previsões sobre o tempo.
As suas regras ingênuas enfeixadas em alguns ditados que tinham, às vezes, rigorismo de leis, falham-lhes, hoje, em toda a linha: passam-lhes, estéreis, as luas novas trovejadas; diluem-se-lhes como fumaradas secas as nuvens que ao entardecer abarreiram os horizontes; varrem-lhes as ventanias súbitas a poeira líquida das neblinas que se adensam de manhã, pelo topo dos outeiros; e em plena primavera, agora, sob o alastramento das soalheiras fortes, o aspecto de suas plantações, esfoliadas e esfloradas, principia a ser desanimador, revelando, antes do estio franco, esse período máximo à vida vegetativa que, nos países quentes, estão no desequilíbrio entre a evaporação intensa pelas folhas e a absorção escassa, e cada vez menor, pelas raízes.
Toda a vegetação estiva, e esgota-se, desfalecida, precisamente na quadra em que as primeiras chuvas e as primeiras descargas elétricas, já lhe deviam ter, do mesmo passo, dissolvido os princípios nutritivos do solo e desdobrado, na mais interessante das reações, os que se disseminam profusamente pelos ares.
Ao invés disto, exaurida dos sóis, cerra o ciclo vital: morrem-lhe improdutivas as primeiras flores; extingue-se-lhe a função assimiladora dos tecidos superficiais, exsicados; e a poeira, que lhe entope os estomas e reveste as folhas, asfixia-a e enfraquece-lhe a reação tonificante da luz.
Daí o quadro lastimável descortinado pelos que se aventuram, nestes dias, a uma viagem no interior — varando a monotonia dos campos mal debruados de estreitas faixas de matas, ou pelos carreadores longos dos cafezais requeimados, desatando-se indefinidos para todos os rumos — miríades de esgalhos estonados quase sem folhas ou em varas, dando em certos trechos, às paisagens, um tom pardacento e uniforme de estepe . . .
Mas é natural o fenômeno. Nem é admissível que ante ele se surpreendam os nossos lavradores, primeiras vítimas dessa anomalia climática.
Porque há longos anos, com persistência que nos faltou para outros empreendimentos, nós mesmos a criamos.
Temos sido um agente geológico nefasto, e um elemento de antagonismo terrivelmente bárbaro da própria natureza que nos rodeia.
É o que nos revela a história.
Foi a princípio um mau ensinamento do aborígene. Na agricultura do selvagem era instrumento preeminente o fogo. Entalhadas as árvores pelos cortantes digis de diorito, e encoivarados os ramos, alastravam-lhes por cima as caitaras crepitantes e devastadoras. Inscreviam, depois, em cercas de troncos carbonizados a área em cinzas onde fora a mata vicejante; e cultivavam-na. Renovavam o mesmo processo na estação seguinte, até que, exaurida, aquela mancha de terra fosse abandonada em caapuera, jazendo dali por diante para todos sempre estéril, porque as famílias vegetais, renovadas no terreno calcinado, eram sempre de tipos arbustivos diversos das da selva primitiva.
O selvagem prosseguia abrindo novas roças, novas derribadas, novas queimas e novos círculos de estragos; novas capoeiras maninhas, vegetando tolhiças, inaptas para reagir contra os elementos, agravando cada vez mais os rigores do próprio clima que as flagelava — e entretecidas de carrascais, afogadas em macegas, espelhando, aqui, o facies adoentado da caatanduva sinistra, além da braveza convulsiva das caatingas. Veio depois o colonizador e copiou o processo. Agravou-o ainda com se aliar ao sertanista ganancioso e bravo, em busca do silvícola e do ouro.
Afogada nos recessos de uma flora que lhe abreviava as vistas e sombreava as tocaias do tapuaia, dilacerou-a, golpeando-a de chamas, para desvendar os horizontes e destacar, bem perceptíveis, tufando nos descampados limpos, as montanhas que o norteavam balizando a rota das bandeiras.
Atacaram a terra nas explorações mineiras a céu aberto; esterilizaram-na com o lastro das grupiaras; retalharam-na a pontaços de alvião; degradaram-na com as torrentes revoltas; e deixaram, ao cabo, aqui, ali, por toda a banda, para sempre áridas, avermelhando nos ermos com o vivo colorido da argila revolvida, a£ catas vazias e tristonhas com o seu aspecto sugestivo de grandes cidades em ruínas...
Ora, tais selvatiquezas atravessaram toda a nossa história.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.