Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Ensaios#Literatura Brasileira

Nativismo Provisório

Por Euclides da Cunha (1907)

Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.

O nosso antilocalismo frisa pela parcialidade. Não há aplausos que nos bastem aos forasteiros disciplinados que nos últimos tempos transfiguraram as nossas culturas e se vincularam aos nossos destinos, nobilitando o trabalho e facilitando a maior reforma social do nosso tempo.

Somos adversários do nativismo sentimental e irritante, que é um erro, uma fraqueza e uma velharia contraposta ao espírito liberal da política contemporânea. A este pseudopatriotismo, para o qual Spencer, na sua velhice melancólica e desiludida, criou a palavra "diabolismo", deve antepor-se um lúcido nacionalismo, em que o mínimo desquerer ao estrangeiro, que nos estende a sua mão experimentada, se harmonize com os máximos resguardos pela conservação dos atributos essenciais da nossa raça e dos traços definidores da nossa qens complexa, tão vacilantes, ou rarescentes na instabilidade de uma formação etnológica não ultimada e longa. E ainda quando nos turbasse um esmaniado jacobinismo, todo ele ruiria ao defrontar o quadro da imigração do Brasil: homens de outros climas que aqui se nacionalizam consorciados com a terra pelos vínculos fecundos das culturas.

Mesmo sob o aspecto estritamente econômico, pensamos como Louis Couty — este belo espírito a um tempo imaginoso e prático que com tão largo descortino prefigurou o nosso desenvolvimento: não podemos ainda dispensar a energia européia mais ativa e apta, para que se desencadeiem as nossas energias naturais. O colono, entre nós, é o primeiro, senão o único fator econômico, e, pelo destaque vivíssimo entre a sua perícia infatigável e a nossa atividade tateante, ele reponta, transformando a biologia industrial num capitulo interessantíssimo de psicologia social.

Deste modo, a simpatia pelo estrangeiro, baseamo-la, até movidos pelo egoísmo, nos nossos interesses imediatos e mais urgentes.

Podemos apreciar com segurança o lado sombrio deste assunto.

De fato, esta imigração que desejamos, não já pelo concurso mecânico do braço que trabalha, senão também porque carecemos da colaboração artística e do adiantamento dos outros povos, aparece diante do vacilante da nossa estrutura política e da nossa formação histórica incompleta como um problema, que não podemos afastar, que não queremos e não devemos afastar, mas que devemos resolver com infinitas cautelas. Não podemos encará-lo com o ânimo folgado nem com o moderantismo com que o enfrentam os naturais de um país onde o forasteiro, parta de onde partir, depare, a par de um intenso individualismo de raça constituída, a atmosfera virtual de uma civilização onde ele para viver tenha que se adaptar. A nossa situação não é ainda esta. O forasteiro de um modo geral — à parte naturalmente o rebotalho das levas imigrantes - aqui depara um meio intelectual e moral facilmente complectível, senão inferior àquele onde nasceu; a pouco e pouco vai trazendo-nos o seu ambiente moral, destruindo pelo continuo implante dos seus costumes o próprio exílio que procurou e criando-nos ao cabo, graças ao nosso desapego às tradições, ao cosmopolitismo instintivo e à inseguridade dos nossos estímulos próprios, um quase exílio paradoxal dentro da nossa própria terra.

É nesta circunstância única que se esboçam inconvenientes capazes das mais exageradas susceptibilidades patrióticas esclarecidas pelas mais sólidas inferências positivas.

Falta-nos integridade étnica que nos aparelhe de resistência diante dos caracteres de outros povos.

O Brasil não é como os Estados Unidos ou a Austrália, onde o inglês, o alemão ou o francês alteram e cambiam as qualidades nativas ou as refundem e refinam, originando um tipo novo e mais elevado do que os elementos formadores. Está numa situação provisória de fraqueza, na franca instabilidade de uma combinação incompleta de efeitos ainda imprevistos, em que a variedade dos sangues, que se caldeiam, implica o dispersivo das tendências díspares, que se entrelaçam.

E isto numa quadra excepcional em que parecem perdidas todas as esperanças no influxo nivelador do pensamento moderno, cuja circulação poderosa, contravindo a todos os prognósticos, não refundiu, não misturou e não unificou os atributos primitivos dos povos, nem destruiu, num desafogado internacionalismo, a cláusula das fronteiras.

(continua...)

12
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →