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#Ensaios#Literatura Brasileira

Transpondo o Himalaia

Por Euclides da Cunha (1907)

Então, avalia bem a identidade admirável que no Tibete, associa, indissoluvelmente, o homem e a terra. Lança o olhar em volta. Contempla as paragens desoladas e abruptas, tumultuando em píncaros desnudos, perdidos no silêncio misterioso das alturas, e compreende que para aquele recanto do planeta, alternadamente trabalhado pelos maiores estios e pelos maiores invernos - só mesmo a quietude eterna e a imensidade vazia do Nirvana...

— Que vai fazer, ali, o inglês?...

Vai defender a Índia. Lorde Curzon, o atual vice-rei, declara-o formalmente; a Índia é uma enorme fortaleza triangular, tendo o Índico como um fosso envolvendo-a por dois lados e, pelo outro, o muro do Himalaia.

Transposto este, está uma esplanada, o glacis, que deve jazer na mais absoluta neutralidade. E a região ao sul do Tibete. Este porém abandonando, nos últimos tempos, o seu isolamento milenário, mandou emissários ao tzar, abrindo espontaneamente à política asiática da Rússia um dilatado campo, que se expande, a partir das fronteiras orientais do Turquestão. Deste modo, a Rússia, sobre o glacis, irá ajustar-se, por terra, às lindes da mais imponente das possessões inglesas, bloqueando-lhe daquele lado trezentos milhões de súditos.

Daí, esse movimento de contrapolítica, que o Times resume limpidamente: "A resolução do governo inglês é clara. Para o russo dominante no Turquestão, o Tibete é um pais muito distante, que tem muito perto, a um passo, a Índia. E, embora este passo tenha de dar-se por cima do Himalaia, a grande cordilheira, de modo algum se compara ao imenso planalto enregelado, onde o caminhante opresso, numa altitude de 5.000 metros, calca, durante dois meses, a neve sem ver um homem, sem ver uma única árvore entre os piamos do Turquestão e as primeiras cabanas dos caçadores, a 200 quilômetros de Lassa. Este planalto, e não a cordilheira, é que forma a fronteira setentrional da Índia; e o governo inglês não permite que lha ocupem num movimento ameaçador e contorneante.

A Inglaterra não vai conquistar, povoar, ou colonizar aquele trato do território. O que a Inglaterra não quer, e tenazmente, é que lhe extingam aquele deserto — e que penetre no país, perpetuamente malignado pelo clima, pela imbecilidade dos lamas e pela vadiagem aventureira dos tchandalas, a alma forte e maravilhosa dos russos."

Ressalta, nesta circunstância, o significado interessantíssimo do caso.

A nação mais prática entre todas – onde a inteligência, conforme a frase de Emerson, está numa espécie de materialismo mental, porque nada produz sem se basear num fato positivo — coloca-se, inesperadamente, ao lado da infinita idealização estagnada do budismo...

Porque, afinal, o que convém à política inglesa na Índia é a permanência da sociedade decaída e apática, o vazio da célebre "esplanada" — com tanta seriedade e tão involuntário humorismo exposta pelo previdente Lorde Curzon.

E para isso, armou-se uma expedição, que lá está, há meses, assoberbada de dificuldades de toda a ordem, num solo onde as armas inglesas, encontrando nos tibetanos uma resistência inesperada, ainda não perderam o brilho, somente devido à bravura e à tenacidade inamolgável dos gurkas e siks do Nepal, os melhores soldados do velho mundo.

A tomada de Giantsé, efetuada pelo coronel Younghusband, depois de um rude canhoneio, deu-lhes um ponto estratégico de primeira ordem. Aquela cidade era o primeiro objetivo da campanha. Segundo se colhe de notícias anteriores, o governador da Índia pretendia, expugnando-a, transformá-la num centro de negociações diplomáticas com os grandes lamas e com o Dalai-Lama de Lassa, por maneira a firmar o prestígio britânico, sem maiores dispêndios de sacrifícios.

A este propósito, citou-se, mesmo, o grande lama de Tashe Lump, "o grande mestre", como o denominam, que assiste em Shigtsé, a poucas léguas de Giantsé.

Ao que se figura, porém, as tentativas neste sentido fracassaram.

Os últimos despachos noticiam que a expedição, agora sob o mando direto do general MacDonald, segue rumo decisivo para o seu objetivo lógico, para Lassa, para o âmago do país, para a Roma intangível do budismo...

Vai desenrolar-se um dos mais empolgantes episódios da história universal.

Realmente, devem aguardar-se todas as surpresas, e até as revelações mais imprevistas, deste recontro: um conflito entre o povo que melhor equilibra as energias da civilização moderna e a velhíssima raça, onde melhor se conserva o desvairado misticismo das sociedades primitivas.

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