Por Euclides da Cunha (1907)
Apareceu de golpe, já feita, e foi um espanto. Na região tranqüila das ciências e das artes, parecia reproduzir-se a invasão da "Horda Dourada" dos mongóis. De um lado, Wronsky, uma espécie de Átila da matemática, convulsionando-a com a sua alucinação prodigiosa de gênio, ora transviado nos maiores absurdos, ora nivelado com Lagrange na interpretação positiva do cálculo; e de outro lado, Pouchkine, prosador e poeta, imprimindo no verso e na novela o vivo sentimentalismo e a energia e as esperanças do seu país. Então, o poder assimilador do gênio eslavo ostentou-se em toda a plenitude; e, pouco depois, a nação, educada pela Europa, aparecia-lhe com uma originalidade inesperada, apresentando-lhe aos olhos surpreendidos e aos aplausos que rebentaram, espontâneos, com Turguenieff, com Dostoiewski, com Tchkkorf e com Tolstoi, esse naturalismo popular e profundo repassado de um forte sentimento da raça, que tanto contrasta com a organização social e política da Rússia.
Estava feita a transformação: as gentes, constituídas de fatores tão estranhos, surgiram revestidas das melhores conquistas morais do nosso tempo. Mostra-o essa mesma literatura, onde vibra uma nota tão impressionadora dramática e humana. Qualquer romance russo é a glorificação de um infortúnio. Quem quer que os deletreie variando vontade de autores e de assuntos, deparara sempre a dolorosa mesmice da desdita invariável, trocados apenas os nomes aos protagonistas: todos humildes, todos doentes, todos os fracos: o mujique, o criminoso impulsivo, o revolucionário, o epiléptico incurável, o neurastênico bizarro e louco. Desenvolvendo este programa singular e inexplicável, porque, segundo observa Talbot, não há país que possua menor número relativo de degenerados, o que domina o escritor russo não é a tese preconcebida, ou o caráter a explanar friamente, senão um largo e generoso sentimento da piedade, diante do qual se eclipsam, ou se anulam, o platônico humanitarismo francês e a artística e seca filantropia britânica.
Nada mais expressivo no trair a alma nova de uma raça do mesmo passo em conflito com a retrógrada organização social, que a comprime, e com o utilitarismo absorvente destes tempos. Conforme um acerto de F. Loliée, o que caracteriza esta mentalidade é a preocupação superior dos fatos morais, o eterno problema altruísta, para que tendem todos os impulsos individuais ou políticos, através de uma análise patética dos menores abalos da natureza humana e visando, essencialmente, no franco estadear dos males profundos da Rússia, estimular as suas grandes aspirações e a sua marcha para o direito e para a liberdade. O próprio niilismo, com as suas mulheres varonis, os seus pensadores severos, os seus poetas sentimentais e ferozes, e os seus facínoras românticos — um desvario dentro de um generoso ideal - reponta às vezes nesta crise, como a forma tormentosa e assombradora da justiça.
No conflito o que se distingue bem é o choque inevitável das duas Rússias, a nova, dos pensadores e artistas, e a Rússia tradicional dos czares; o recontro do ária e do kalmuko.
Daí a sua fisionomia bárbara, porque é incoerente e revolta, surgindo numa profusão extraordinária de vida, em que os velhos estigmas ancestrais, cada vez mais apagados, mal se denunciam entre os esplendores de um belo idealismo cada vez mais intenso e alto ...
Mas daí também a sua missão histórica neste século. Conquistada pelo espírito moderno, a Rússia tem, naqueles estigmas remanescentes, admiráveis recursos para a luta que nesta hora se desencadeia no Extremo Oriente. O seu temperamento bárbaro será o guarda titânico invencível, não já de sua civilização, mas também de toda a civilização européia.
O conceito é de Havelock Ellis: o centro da vida universal dos povos tende a deslocar-se para o Pacífico circundado pelas nações mais jovens e vigorosas da terra — a Austrália, o Japão e as Américas.
Ali a Rússia não tem apenas o privilégio de ser a única representante da Europa, senão o de ser a única entre as nacionalidades que, por um longo contacto com a barbaria, pelo hábito de vencer e dominar os impérios orientais tipicamente bárbaros e por conservar ainda vivazes os atributos guerreiros do homem primitivo está mais bem aparelhada a constituir-se o núcleo de resistência do "bloc" ocidental contra a ameaça asiática.
E inevitavelmente - quaisquer que sejam os prodígios dos bravos generais e dos bravíssimos almirantes japoneses — a civilização seguirá para aquele novo mundo do futuro — que margeará o Pacífico — tomando uma passagem no Transiberiano...
CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.