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#Ensaios#Literatura Brasileira

Plano de uma Cruzada

Por Euclides da Cunha (1907)

Diante da enorme fatalidade cosmológica, temos uma atitude de amadores; e fazemos física para moças. Daí a instabilidade e o baralhamento dos juízos. Acompanhamos o fenômeno escravizados à sua cadência rítmica; não lhe antepomos à intermitência a continuidade dos esforços. Entretanto, o próprio variar das causas precipitadas nos revela. a sua feição complexa, exigindo longos e pacientes estudos. E evidente que estes serão sempre estéreis, adstritos aos paroxismos estivais, desdobrando-se na plenitude das catástrofes desencadeadas com o objetivo ilusório de as debelar, quando uma intervenção realmente eficaz só pode consistir no prevenir as secas inevitáveis, do futuro.

Estabelecido de modo iniludível o fatalismo das leis físicas, que estão firmando o regime desértico em mais de um milhão de quilômetros quadrados do território e torturando cerca de três milhões de povoadores, impõe-se-nos a resistência permanente, constante, inabalável e tenaz — uma espécie de "guerra dos cem anos" contra o clima — sem mesmo a trégua dos largos períodos benignos, porque será exatamente durante eles que nos aperceberemos de elementos mais positivos para a reação.

As secas do norte interessam a dez Estados. Irradiantes do Ceará, vão, pelo levante, ao centro do Piauí, buscando as extremas meridionais do Maranhão, de onde alcançam as do norte de Goiás; alongam-se para o ocidente abarcando com o limbo fulgurante o Rio Grande do Norte, a Paraíba, Pernambuco e Alagoas, lançando as últimas centelhas pelo mar em fora até Fernando de Noronha; e alastram-se pela Bahia e Sergipe, para o sul, até às raias setentrionais de Minas.

Sendo assim, qualquer que seja o desfalecimento econômico do país, justifica-se a formação de comissões permanentes, de profissionais — modestas embora, mas de uma estrutura inteiriça — que, demoradamente, desvendando com firmeza as leis reais dos fatos inorgânicos observados, possam esclarecer a ação ulterior e decisiva do governo.

Não há mais elevada missão à nossa engenharia. Somente ela, ao cabo de uma longa tarefa (que irá das cartas topográficas, e hipsométricas, aos dados sobre a natureza do solo, às observações meteorológicas sistemáticas e aos conhecimentos relativos à resistência e desenvolvimento da flora), poderá delinear o plano estratégico desta campanha formidável contra o deserto.

Então, podarão concorrer, reciprocamente nas suas influências variáveis, os vários recursos que em geral se sugerem isolados: a açudada largamente disseminada, já pelo abarreirar dos vales apropriados, já pela reconstrução dos lanços de montanhas que a erosão secular das torrentes escancelou em boqueirões, o que vale por uma restauração parcial da terra; a arborização em vasta escala com os tipos vegetais que, a exemplo do joazeiro, mais se afeiçoam à rudeza climática das paragens; as estradas de ferro de traçados adrede dispostos ao deslocamento rápido das gentes flageladas; os poços artesianos, nos pontos em que a estrutura granítica do solo não apresentar dificuldades insuperáveis; e até mesmo uma provável derivação das águas do S. Francisco, para os tributários superiores do Jaguaribe e do Piauí, levando perpetuamente à natureza torturada do norte os alentos e a vida da natureza maravilhosa do sul...

É, por certo, um programa estonteador; mas único, improrrogável, urgente.

Há bem pouco tempo, num artigo notável, Barbosa Rodrigues demonstrou o empobrecimento contínuo das nossas fontes, dos nossos rios e até mesmo das poderosas artérias fluviais da Amazônia.

A palavra austera do naturalista não logrou vingar o reduzido círculo de alguns estudiosos. Vibrou, inutilmente, como o grito de alarma de uma atalaia longínqua, avantajada demais. Entretanto, dela se conclui que, dada a generalidade daquele fato e o seu crescendo desconsolativo, deve engravescê-lo numa escala maior o regime excessivo dos sertões do norte. O deserto invoca o deserto. Cada aparecimento de uma seca parece atrair outra, maior e menos remorada, dando à terra crescente receptibilidade para o flagelo.

Os intervalos que as separam estreitam-se, acelerando-lhe o ritmo, agravando-lhe o grau termométrico das canículas que são a febre alta daquela sezão monstruosa da terra. O interessante paralelismo de datas, que lhes dava um movimento uniforme nos séculos anteriores, parece destruir-se a pouco e pouco; e os seus ciclos, outrora amplíssimos, reproduzem-se, cada vez mais céleres e constritos, como arrastados nos giros cada vez menores de uma espiral invertida.

Deste modo não há vacilar numa ação decisiva e, sobretudo, permanente.

Os holandeses não se limitaram a construir grande parte da Holanda: ainda hoje, quando tufam as marés e a onda ensofregada acachoa ruidosa, chofrando a antemural dos diques, escuta-a da outra banda uma legião tranqüila e vigilante de engenheiros hidráulicos, os primeiros do mundo.

A França no arrancar, transfigurada, a Tunísia do Saara, reata a empresa muitas vezes secular dos romanos.

Porque para esses desastrosos desvios da natureza só vale a resistência organizada, permanente e contínua.



(continua...)

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