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#Ensaios#Literatura Brasileira

O Kaiser

Por Euclides da Cunha (1907)

Autocrata sem rebuços num império constitucional, em que os seus secretários particulares substituem os ministros responsáveis, aperta-se no estreitíssimo círculo de uma Corte louvaminheira, que não só o afasta do influxo austero da opinião pública germânica, como o imprópria a avaliar os desastrosos efeitos de sua garrulice inconveniente sobre todas as nações. Embalde von Treitschk, o notável sucessor de Mommsen, denuncia "o exagerado culto teocrático à majestade que macula a monarquia prussiana "e as formalidades e .cerimônias de uma Corte, onde "há a abjeção estagnada do servilismo oriental"; ou o Dr. Hann, secretário da Liga Agrária, denuncia nuamente, em público, o acabamento das qualidades superiores de consistência, de continuidade e de firmeza de inabalável política bismarckiana. O imperador não os ouve: repele-os.

Eles não lhe embalam a vaidade, não lhe aplaudem os discursos, não lhe admiram as concepções, não se enfileiram na numerosa claque que lhe proclama o enciclopedismo distenso. Wirchow atravessou o seu reinado, inteiramente desfavorecido, porque era liberal. Hauptmann, o maior dramaturgo da Alemanha, figura-se-lhe um rabiscador inaturável; a sua grande voz não vinga o abafamento dos reposteiros de Potsdam. Hoje o gênio loureado na terra sonhadora de Goethe é o capitão Lanff, um lírico de caserna. Para este todos os requintes dos favores imperiais, porque os seus dramas, impostos por decreto a todos os teatros subsidiados do Império — os seus dramas tremendos, refertos de cutiladas, de tiros, de urros pavorosos de terribilíssimos heróis, em que os entrechos se embaralham pisoados de cargas de cavalaria — são a apologia sanguinolenta dos Hohenzollerns. Reconhece-se que são maus, que são positivamente idiotas, nota canhear dos conceitos, na frase cambeante e perra, nos enredos desconexos e nos desenlaces abstrusos — mas lisonjeiam a vaidade imperial.

Esta vaidade é tudo, e para a satisfazer tudo se sacrifica.

Mostra-o o mesmo exército alemão, que, durante tanto tempo, foi o pavor da Europa. Viu-se-lhe, depois, a imponente fragilidade.

E um exército decorativo, adrede instruído a que rebrilhe ao sol dos dias festivos a espada virginalmente inocente do Kaiser, diante da burguesia assustadiça.

Revelou-o, recentemente ainda, Wolf von Schierbraum, e propositadamente escolhemos, não já um prussiano, mas um rígido prussiano da guerra de 70, para que se firme este conceito: "O imperador, graças à sua índole espetaculosa, preparou o exército, não para a luta consoante a tática e as armas atuais, mas como se ainda vivêssemos nos antigos tempos". E logo adiante, textualmente: "Há quinze anos que o educa para falsas batalhas, arremetendo com imaginários inimigos, em condições tais, que lhe acarretarão completo extermínio em qualquer campanha destes dias".

E um exército de paradas. Guilherme II conserva-o, cheio de desvelos de artista e de colecionador de raridades — como um dos seus avós, Frederico Guilherme I, conservava os seus granadeiros de dois metros de altura. e os seus dragões torreantes — cuidadosamente, fora das intempéries danosas das batalhas...

Ele é a sua claque favorita e temerosa; e acredita-se, por vezes, que o arma contra a própria Alemanha.

Quando o imperador escreveu, no Livro de Ouro de Munich, o seu célebre suprema lex regi voluntas, ninguém aplaudiu a barbaria deste latim certíssimo, mas os feld-marechais deliraram, eletrizados.

Pouco tempo depois, ao rematar um de seus discursos perigosos com aquele: "Todos vós deveis ter uma vontade, a Minha vontade, e uma só lei, a Minha lei" — houve em toda a Alemanha um doloroso espanto, e o partido socialista, crescente à medida que a vontade imperial impõe ao Reichstag sucessivos aumentos de baionetas, replicou-lhe com uma de suas manifestações ruidosas. O Kaiser assustase; mete-se, assombrado, entre as fileiras adensadas, no campo de manobras de março de 1900, e ali, sob a hipnose estonteadora de milhares de espadas rebrilhantes:

"Se Berlim renovar contra o rei o insolente levante de 1&98, vós, meus granadeiros, corrigireis os rebeldes a pontaços de baionetas!" E houve um longo, estripitoso aplauso ...

Nada mais límpido no delatar o seu antagonismo com a própria capital do império, se inúmeros outros casos não o atestassem sob variadíssimas formas.

Sumo árbitro em tudo, em política, como em música, em arquitetura, como em poesia, em pintura, como em qualquer ciência; estrategista, dramaturgo, arqueólogo, teólogo, inédito em tudo, poeta sem um verso, filósofo sem um conceito, músico sem uma nota, guerreiro sem um golpe de sabre, esse dissipar a individualidade irrequieta, espraiando-a largamente sobre todas as coisas, tem-lhe acarretado sucessivos desapontamentos.

Aqui, um edifício, o novo palácio de Reichstag, é o melhor exemplo, que se lhe afigura monstruoso aleijão, na mesma hora em que todos os profissionais alemães consagravam em verdadeira apoteose o arquiteto feliz que o planejou; além, um músico, que se lhe afigura simplesmente detestável — e que se imortaliza, e é Wagner...

(continua...)

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