Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Finalmente a velha persignou-se e se ergueu. Um lugar ficou vazio; o moço levantava-se também por sua vez, quando a jovem escapando-se das mãos da senhora que a sustinha, foi... atirou-se de joelhos ao pé da urna funérea, exclamando: – Meu pai!... minha mãe!...
O mancebo, que acabava de levantar-se, escutando aquela exclamação dolorosa, e olhando para a pessoa que a soltava, começou por seu turno a soluçar desabridamente, e, sem querer talvez, pôs as mãos ainda em pé, e depois foi pouco a pouco curvando-se até ajoelhar-se de novo.
No entanto a comoção ou o acaso tinha feito com que se soltasse a mantilha que a velha trajava; e então aquela mulher alta, magra, com seus longos cabelos cor de neve caídos sobre uma saia de sarja preta, com as mãos postas e em pé por detrás daqueles dois jovens, completava um quadro da mais dolorosa eloqüência.
Conhecendo que também ela se fazia objeto da geral atenção, apontou para o túmulo, olhou com seus olhos verdes para a multidão e disse:
– É o prêmio do justo.
E desfazendo-se em lágrimas, a velha envolveu-se de novo e rudemente com sua mantilha, e retirou-se apressada.
A esse tempo também o mancebo tinha já refletido sobre o que acabara de praticar, e espantado de si mesmo, aproveitou o instante em que todos os olhos acompanhavam a velha, para desaparecer por entre os túmulos.
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À inteligência de ninguém será feita a injustiça de dizer-se, como revelando um segredo, que essa mulher era Irias, e esse mancebo Cândido.
Somente convém acompanhá-los em sua volta para o “Purgatório-trigueiro”.
CAPÍTULO V
O INSULTO
A VELHA e o mancebo encontraram-se à porta do templo, e sem se dizerem palavra, dirigiram-se para o “Purgatório-trigueiro”.
Irias voltava comovida; Cândido absorto e preocupado caminhava a esmo.
Havia mês e meio que na alma de Cândido se desabotoara sobre uma bela flor, um pensamento novo e brilhante, que desde então sendo o seu eterno companheiro das vigílias do dia, e dos sonhos da noite, nesse momento em que tornava para o “Purgatório-trigueiro”, o ocupava exclusivamente.
Esse pensamento se debuxava na alma do mancebo sob a forma de uma mulher formosa.
Até bem pouco, Cândido, que sentia o coração cheio de amor, que pedia incessantemente ao céu sua mãe para saciar nessa mulher, que lhe dera a vida, toda sua ambição de amar e de ser amado, não tinha ainda adivinhado que além do amor filial um outro afeto há, ardente e poderoso, que enche a vida do homem, que lhe desvaira a cabeça e pode fazer dele um herói ou um demônio.
Cândido era uma criatura excepcional, um desses mancebos que tem podido viajar pelo mundo vinte anos sem sentir surgir-lhe em seu caminho a figura de uma mulher formosa que lhe fizesse pagar o tributo gracioso, que enfim o coração do homem paga sempre na vida.
Mas, ao romper de uma aurora, o mancebo lançou por acaso os olhos através da fresta de uma janela, e viu uma moça que, ao muito, poderia ser sua irmã; e para logo ele compreendeu, que, além de uma mãe, há no mundo uma outra mulher, a quem se pode amar muito.
E desde esse dia, em todos os outros, e à mesma hora, Cândido ia esperar que a “Bela Órfã” descesse ao seu jardim, e em êxtase a adorava, ou descuidadosa passeando por entre as flores, ou negligente repousando no banco de relva do caramanchão, envolvida na nuvem de suas madeixas.
Amava ele aquela mulher?... Cândido juraria que não. Em seu entender Celina não era uma mulher para se amar; era sim uma bela visão para se admirar extasiado.
No entanto, ele que pensava não amá-la, despertava, ao amanhecer, para contemplá-la; de dia por ela suspirava; dormia e a via em sonhos.
A mãe de Cândido tinha já uma rival no coração de seu filho.
Acompanhando Irias ao templo de S. Francisco de Paula, Cândido pagava também o seu tributo de gratidão aos restos do homem beneficente; e além disso, rezava pelo pai de Celina.
Mas, quando a órfã soltou seu grito de dor, e caiu de joelhos junto do túmulo de seu pai, Cândido, preciso é dizer, esqueceu o lugar onde estava, a multidão que o cercava, e o fim para que ali viera; e de novo ajoelhando-se ele o fez, instintivamente, não para deprecar por um finado, porém só em adoração àquela mulher formosa.
Mal chegou o instante da reflexão, ergueu-se e fugindo do jazigo e encontrando sua mãe adotiva à porta do templo, travou-lhe do braço e levou-a apressadamente pelas ruas.
O coração e a cabeça daquele mancebo estavam em guerra. A pesar dele, a despeito de seus esforços para enganar-se a si próprio, ele amava. E seu coração lhe pedia com ardor a posse dessa mulher encantadora... a primeira que tinha amado.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.