Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Porque, preciso é dizê-lo, a verdadeira dor é simples e singela; e a saudade que se não simula, a saudade que sai do coração, não tem necessidade de adornar-se. Assemelham-se nisso às mulheres, que quanto mais feias mais se enfeitam para disfarçar seus senões, e quanto mais belas mais simplesmente se vestem para ostentar seus naturais encantos. Assim a dor e a saudade que se fingem, precisam de ornar-se muito, e as que são verdadeiras apresentam-se nuas... e sua nudez é imensamente sublime.
A melhor expressão de uma dor é o pranto. O mais rico ornamento dos túmulos é a caveira.
Os vestidos devem condizer com o corpo que se veste. Não há, não pode haver relação entre molduras, franjas douradas e um esqueleto.
Essa riqueza parece uma zombaria que a vida faz à morte. Essa riqueza destrói completamente a idéia tremenda que em tal dia deve ocupar o espírito dos vivos.
Porque à porta do cemitério o homem lê as terríveis palavras de morte: “Lembra-te, homem, que és pó, e que em pó te hás de tornar”. E dentro do jazigo de encontra ouro... ostentação... luxo...
Para que pois uma tão grande mentira em dia de tão grande verdade?... não sabeis?
É porque o filho do rico tremeu quando viu que os ossos de seu pai não se podiam distinguir dos ossos do mendigo; e com as galas da vida quis esconder a igualdade do pó.
Embora... Ou no mausoléu, ou na simples urna funérea, estava sempre o triunfo da morte. Mesquinha diferença havia: um guardava o esqueleto do rico, a outra os ossos do pobre; mas de mistura um e outros, quem acertaria com a caveira do primeiro?. .
Havia aí mesmo nessa área tremenda, ouro, ostentação no exterior; pó e mais nada internamente. Por cima estava ainda a vida... a mentira; por baixo triunfava a morte... a verdade.
A linha terrível e anti-religiosa que com tão maus resultados divide os filhos de Deus em dois grupos, ricos e pobres: ricos que gozam e mandam; pobres, que trabalham e sofrem de contínuo, estava traçada aos olhos dos vivos; mas em seu hediondo aspecto as caveiras pareciam estar soltando disformes gargalhadas de escárnio contra pretensões vãs de uma vaidade impotente.
E pois, e apesar de tudo, havia aí no cemitério a igualdade dos mortos mal desfigurada pela desigualdade dos vivos.
E por entre esses mausoléus e esses túmulos, iam passando grave e tristemente aqueles que vinham chorar seus defuntos.
O silêncio dos túmulos era de instante a instante cortado pelos soluços dos vivos, e a sequidão do pó recebia as lágrimas da carne.
Às vezes uma virgem pálida e indiferente a tudo que a rodeava, banhada em pranto de saudade, se deixava ver de joelhos junto de um túmulo, como a sombra de um finado descansado sobre seus restos. No meio dessa multidão desolada, não se perguntava, adivinhava-se quais eram os pais, quais as mães que choravam seus filhos, porque essa dor profunda do coração fala mais alto e mais claro do que as outras.
Não era porém comum o ver-se sobre um túmulo deposta a roxa perpétua pela mão da simples amizade. Poucos se notavam os amigos de além-túmulo.
Mas lá em sombrio recanto havia uma urna humilde e modesta, onde um grande número de homens e mulheres se tinha ido ajoelhar e depor seus ramos de saudades. Ora um mancebo luzido e rico, quase sempre a pobre mulher envolta em negra mantilha, e o velho abatido e magro se fora curvar ante esse pó sem dúvida muito amado.
O túmulo como dito fica, era simples e humilde; tinha por inscrição na parte superior duas letras – P. A. – e logo abaixo delas uma outra – C.
Ultimamente uma velha magra, de cabelos brancos e olhos verdes, e um mancebo pálido, de cabelos pretos e olhos pardos, acabavam de ajoelhar-se junto do túmulo, e oravam profundamente.
Um homem, a quem o amor que se tributava àquele pó tão lembrado, parecia haver muito sensibilizado, esperou que a velha e o mancebo se erguessem para falarlhes; mas vendo que ambos por demais se demoravam, aproveitou um seu momento em que a mulher levantou a cabeça e tocando-lhe no ombro, perguntou:
– Senhora, perdoe se a interrompo; mas por quem é que ora tão fervorosamente?
– Pelos pais dos pobres, respondeu a velha.
– Como se chamavam?...
A mulher apontou para as três letras, e disse:
– Paulo Ângelo e Celina.
– Ah! tem razão; por minha vez rezarei por eles.
A velha tinha já outra vez se mergulhado em suas orações.
Nesse momento aproximaram-se do túmulo um velho e duas senhoras; uma muito mais moça que se quis logo lançar de joelhos, e outra também moça ainda, que fez a primeira parar à força enquanto se não levantavam a velha e o mancebo.
Teve então lugar uma cena que atraiu a atenção de quase todos os circunstantes.
A primeira das recém-chegadas, que era tão jovem como bela, sustida à força por sua companheira, por entre um dilúvio de lágrimas, sufocada por seus soluços, encarava ainda assim com indizível mostra de gratidão a mulher e o mancebo que rezavam junto daquele túmulo.
E o velho pálido, com os braços cruzados e a cabeça caída, chorava muito, como chora um pai pelo filho amado que lhe morreu.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.